DOMINGO DE RAMOS E DA PAIXÃO DO SENHOR - espiritualidade litúrgica:


 

A celebração do Domingo de Ramos da Paixão do Senhor a liturgia da Igreja inaugura a semana santa. Nesta semana Maior se celebra o centro da vida e da fé, o Mistério Pascal de Cristo, sua paixão, morte e ressurreição.

A liturgia atual (pós reforma litúrgica) é constituída de dois ritos de origem e características bem distintas, mas que se coordenam e se ordenam entre si: 1) a Bênção e a procissão dos Ramos, que visibiliza a confissão pública da realeza divina (não humana) de Jesus; 2) a comemoração (memorial) solene da Paixão do Senhor. Os dois ritos desejam expressar e integrar solenemente os dois componentes do Mistério Pascal:  1) paixão sofredora e 2) a exaltação messiânica do Senhor, que costurarão todos os dias desta semana maior.

Um pouco de história:

O nome da celebração e a sua expressão significativa (a forma como se celebra) vai sofrendo, ao longo dos séculos, algumas mudanças. Conservando-se sempre seu núcleo e caráter fundamenta, que é, em primeiro lugar, fazer a memória da entrada de Jesus em Jerusalém. Desde o século IV temos registros históricos confiáveis acerca de sua celebração na cidade Santa. Mas ainda não se pode  falar de uma liturgia de benção para os ramos de oliveira. Esta prática é posterior, inclusive na liturgia romana.

Quem apresenta um registro até minucioso da celebração do Domingo de Ramos em Jerusalém é a peregrina Egéria, a qual  se dirige à cidade santa para acompanhar as celebrações durante sua peregrinação. Ela escreve em seu diário de viagem que, no domingo antes da Páscoa

“pela undécima hora (13h) lê-se o trecho do evangelho no qual as crianças com ramos e palmas vão ao encontro do Senhor, dizendo: “Bendito o que vêm em nome do Senhor”. Logo o bispo se levanta e o povo também. Depois, do alto do Monte das Oliveiras se faz a pé toda a caminhada. Todo o povo caminha a frente do bispo com hinos e antífonas, respondendo sempre: “Bendito o que vêm em nome do Senhor”. Todas as crianças do lugar, mesmo as que ainda não sabem andar por serem pequenas demais e que são carregadas pelos pais, todas trazem ramos, uns de palmeira, outros de oliveira; assim, a multidão acompanha o bispo, do mesmo modo como naquele dia foi acompanhado o Senhor. Do alto do monte até a cidade e daí, atravessando-a toda, até a Anástasis, todos fazem o percurso inteiramente a pé, mesmo se são damas ou personagens insignes. Desta forma acompanham o Bispo respondendo aos salmos. Assim, andando devagar para que o povo não se canse, chega-se à Anástasis quando já está escuro. Ao chegar lá, embora seja tarde, celebra-se o Lucernário, faz-se ainda uma adoração à Cruz e despede-se o povo.” (EGÉRIA, In Journal. ed. Pétré, 223)

Note-se: após a essa celebração, não se menciona ainda uma celebração eucarística, nem a menção à Bênção das palmas de ramos. Como e quando o uso litúrgico da cidade santa chegou ao ocidente é desconhecido. Porém, na Espanha do século V, no Liber Ordinum de S. Isidoro de Sevilha (637 d.C) se faz presente, bem como no Missal de Bobbio que apresenta evidentes contatos com a liturgia bizantina; Beda (735 d.C) descreve em sua homilia “in Dominica palmarum (no Domingo de Ramos)” uma liturgia para os ramos; Teodolfo, bispo de Orleans (760 d.C) compõe um hino litúrgico até hoje presente na celebração (Gloria, laus et honor..), que atesta já um desenvolvimento do rito na região de Angers. No tempo de Amalário (853 d.C) a procissão já era tradicional da Gália.  Em Roma, os sacramentarios gelasiano (do Papa Gelásio) e o gregoriano (Papa Gregório) já conhecem e trazem para esta celebração o título “Dominica in palmis”, que de si, não se supõe um rito semelhante.

Somente no século X, em Roma,  se pode encontrar no Pontifical Romano-Germânico um rito antigo de procissão e de benção para os ramos, contendo muitas orações de bênçãos (eucologias) para eles. Eram abençoadas por um cardeal. Somente a partir do século XIII eram abençoados pelo Papa. A procissão se formava na Basílica de Santa Maria Maior com destino à São João de Latrão (basílica estacional para aquela ocasião). Simbolizando a Cristo vinha o Evangeliário coberto com véu purpura, que mais tarde fora suprimido. (Na Alemanha foi que surgiu o costume de levar o jumento. Mas este era somente uma escultura de madeiras com o Senhor montado sobre ele. Em Milão, na liturgia ambrosiana, é que o Arcebispo vinha montado num cavalo durante a procissão até a basílica ambrosiana, para celebrar a missa). A lei litúrgica pós-reforma do Vaticano II, a propósito, não permite tais dramatizações e as desencoraja.

A Reforma Litúrgica operada pelo Concilio Vaticano II uniu as duas dimensões celebrativas: a entrada messiânica do Senhor em Jerusalém e a celebração de Sua Paixão, coroando as iniciativas precedentes realizadas por Pio XII (1951, Vigília Pascal; 1955, Semana Santa).

Vamos à celebração, pois ela, através do rito se explica e se diz.

A celebração do Domingo de Ramos da Paixão do Senhor apresenta três opções litúrgicas para realizar a procissão que fará a memória da entrada de Jesus em Jerusalém: 1) a primeira forma pressupõe um local de encontro para que a assembleia possa se reunir. A celebração se inicia com o canto “Hosana ao filho de Davi (Hosanna Filio David); a seguir o presidente saúda os fiéis e a convida a participar ativamente da celebração que está para iniciar, explicando-lhes o significado: fazer a memória da entrada do Senhor em Jerusalém, para se iniciar a celebração de Seu Mistério Pascal, sua paixão, morte e ressurreição.

O povo de Deus é convidado a seguir os passos de seu Salvador para que, associando-se ao mistério de Sua cruz, participe também de sua ressurreição e vida. A monição introdutória também explicita a tônica dos dias da Semana Santa, isto é, será ela perpassada pela dinâmica da Paixão, de modo a preparar a celebração do Tríduo Pascal, ápice desta semana.

Em seguida, o presidente da celebração abençoa os ramos, suplicando a Bênção de Deus a fim de que os santifique para que o povo fiel possa chegar à eterna Jerusalém, seguindo com alegria o Cristo. Realiza, então a aspersão com água benta sobre toda a assembleia. Em seguida, proclama-se o evangelho da entrada em Jerusalém, concernente ao ciclo do ano litúrgico (A, B, C). Então, a assembleia é motivada a dirigir-se em procissão até a igreja, ao canto da antífona “Os filhos dos hebreus (Pueri hebraeorum)”.

Ao chegar na igreja, a procissão segue para o presbitério (sem parar na porta, sem bater nela com a haste da cruz), e, ao chegar ao altar, o presidente retira a capa pluvial e a estola vermelha e se reveste da estola e da casula, incensa o altar, se dirige à sede presidencial  (ou a Cátedra, no caso do Bispo diocesano) e, omitindo os ritos iniciais recita a Oração Coleta

A segunda forma de procissão é bem simples: reúnem-se todos a porta da igreja com os ramos nas mãos. Canta-se a antífona “Hosana ao Filho de Davi”, são abençoados os ramos, proclama-se o evangelho da entrada de Jesus em Jerusalém, todos entram e o celebrante se dirige à sede presidencial para recitar a Oração Coleta. A terceira forma é a mais simples, onde não se pode realizar a procissão e a benção. Faz-se uma entrada simples na igreja cantando “Seis dias antes da festa solene da páscoa (Ante sex dies sollemnis Paschae)”. Recomenda-se uma celebração da palavra.

A Liturgia da Palavra, após a Oração Coleta é inteiramente centralizada no mistério da Paixão do Senhor. Para os três ciclos litúrgicos (A, B, C) a primeira leitura é retirada de Is 50,4-7, onde se toma figura do Servo Sofredor de YHWH, como modelo de vida para a missão de Jesus. O Sl 21 (22), que reforça a confiança do justo sofredor na intervenção salvadora de Deus em sua vida, ressignifica a ideia do sofrimento do Senhor. O salmo não enaltece o sofrimento mas a confiança inabalável que o Servo e Justo que o recita tem em Deus, sabendo que somente Ele é quem pode salvá-lo. A segunda leitura, o hino da kênosis (esvaziamento) de Jesus, reforça o caráter da obediência em relação ao projeto do Pai, e que sua missão é vivida puramente através da natureza humana. As narrativas da Paixão também seguem o ciclo litúrgico. A deste ano, será a de Mateus, que compara o mistério da nova aliança inaugurada por Cristo com a antiga concluída com Moisés.

Após a homilia, segue-se a Liturgia Eucarística. A oração super oblata (sobre as oferendas) apresenta uma súplica bela, a qual reforça que é somente pela força da paixão salvadora de Cristo, através de Seu sacrifício, que o ser humano alcança a misericórdia e a reconciliação.

A Oração Eucarística apresenta o prefácio da Paixão do Senhor, em que se enaltece a ação voluntária de Jesus em oferecer-se ao Pai pela humanidade. O inocente que se coloca na esteira dos pecadores; o santo, que resgata os criminosos, cuja morte apaga os pecados e sua ressurreição torna o ser humano justo novamente. A oração pós-comunhão pede, que pela força do Sacramento pascal por excelência, a Eucaristia, se alcance a ressurreição esperada. Nesse sentido, os formulários eucológicos (orações litúrgicas) e a Liturgia da Palavra mostram a realidade desta celebração do Domingo de Ramos da Paixão do Senhor e dos dias que se seguirão, até a celebração do Sagrado Tríduo Pascal do Senhor. Ao mesmo tempo que trata de transmitir o verdadeiro rosto de Jesus com o qual o fiel é convidado a “entrar” em Jerusalém e viver as etapas de Sua paixão. Por isso, são sempre válidas as perguntas: Com qual Jesus desejo começar a semana santa, o glorioso, o todo-poderoso (super-homem), o violento, que jamais existiu; ou o servo obediente, justo e amoroso, o cordeiro manso; o homem despojado e livre, reconciliado e reconciliador, verdadeiro homem, verdadeiro Deus? Como desejo iniciar o caminho da paixão do Senhor? Quais disposições interiores me motivam? Quais dificuldades ainda encontro? Quais tentações ainda podem me afastar do caminho da paixão, da cruz e da ressurreição do Senhor?

 

BIBLIOGRAFIA:

AUGÉ,M; NOCENT, A. In ANO LITÚRGICO: história, teologia e celebração. Col. ANAMNESIS, vol. V. Paulinas, 1991.

RIGHETTI, M. MANUALE DI STORIA LITÚRGICA, vol II. Ed. ANCORA, 1971.

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