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A descida do Senhor à mansão dos mortos.

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(Patrística Grega 43,439.451.462-463, in Liturgia das Horas, Ofício das leituras)  (Séc.IV) Uma antiga homilia no grande Sábado Santo: Que está acontecendo hoje? Um grande silêncio reina sobre a terra. Um grande silêncio e uma grande solidão. Um grande silêncio, porque o Rei está dormindo; a terra estremeceu e ficou silenciosa, porque o Deus feito homem adormeceu e acordou os que dormiam há séculos. Deus morreu na carne e despertou a mansão dos mortos. Ele vai antes de tudo à procura de Adão, nosso primeiro pai, a ovelha perdida. Faz questão de visitar os que estão mergulhados nas trevas e na sombra da morte. Deus e seu Filho vão ao encontro de Adão e Eva cativos, agora libertos dos sofrimentos. O Senhor entrou onde eles estavam, levando em suas mãos a arma da cruz vitoriosa. Quando Adão, nosso primeiro pai, o viu, exclamou para todos os demais, batendo no peito e cheio de admiração: “O meu Senhor está no meio de nós”. E Cristo respondeu a Adão: “E com teu espírito”. E tomando-o pe...

TRÍDUO PASCAL – Uma única páscoa.

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    A semana santa iniciou-se com a celebração na qual se fez memória da entrada do Senhor em Jerusalém para viver a plenitude de sua vida e missão, a sua paixão, morte e ressurreição. Por isso o Domingo de Ramos da Paixão do Senhor marca o começo desta semana. O seu ápice é a celebração do mistério pascal de Cristo através do Tríduo Pascal. A tradição eclesial afirma que “o vértice das celebrações pascais e de todo o Ano Litúrgico é o Tríduo Pascal “da Paixão e da Ressurreição do Senhor” (NUALC 18). Ao seu interno, a Vigília Pascal é considerada como “a mãe de todas as santas vigílias” (NUALC 21; PS 77). Mas, se se fala em tríduo, não seria natural que ele começasse na quinta-feira, contasse com a sexta, e se encerrasse no sábado, para então celebrar o domingo de Páscoa? Esta é uma concepção equivocada da contagem e da compreensão dos dias que o compõem. Se faz necessário compreender a forma como são marcados os dias litúrgicos na vida da Igreja. Existem duas for...

DOMINGO DE RAMOS E DA PAIXÃO DO SENHOR - espiritualidade litúrgica:

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  A celebração do Domingo de Ramos da Paixão do Senhor a liturgia da Igreja inaugura a semana santa. Nesta semana Maior se celebra o centro da vida e da fé, o Mistério Pascal de Cristo, sua paixão, morte e ressurreição. A liturgia atual (pós reforma litúrgica) é constituída de dois ritos de origem e características bem distintas, mas que se coordenam e se ordenam entre si: 1) a Bênção e a procissão dos Ramos, que visibiliza a confissão pública da realeza divina (não humana) de Jesus; 2) a comemoração (memorial) solene da Paixão do Senhor. Os dois ritos desejam expressar e integrar solenemente os dois componentes do Mistério Pascal:   1) paixão sofredora e 2) a exaltação messiânica do Senhor, que costurarão todos os dias desta semana maior. Um pouco de história: O nome da celebração e a sua expressão significativa (a forma como se celebra) vai sofrendo, ao longo dos séculos, algumas mudanças. Conservando-se sempre seu núcleo e caráter fundamenta, que é, em primeiro lugar,...

QUARESMA: um convite a se preparar para a vida.

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  Com o rito da imposição das Cinzas inicia-se o tempo da Quaresma. Para entendermos bem o significado deste tempo litúrgico e especial para a nossa vida de fé, propomos uma nova leitura deste tempo após o Concílio Vaticano II. Antes do Concílio, o rito de imposição das cinzas vinha acompanhado da formula litúrgica retirada do Livro do Gênesis: “Lembra-te que és pó, e ao pó retornarás” (Gn 3,19). Se, por um lado o ambiente proposto pelo tempo quaresmal revestia-se em tons de tristeza, e lúgubre, por outro, a liturgia que fazia uso da formula do terceiro capítulo do livro do Gênesis, relembrava aquela maldição dita por Deus ao homem por conta de seu pecado. A quaresma era vista, então, como um período de mortificação, penitência e de sacrifício. Hoje, a liturgia pós-conciliar, na imposição das cinzas, apresenta uma expressão evangélica que convida à plenitude de vida: “Convertei-vos e crede no Evangelho”. Isto é, “mude a orientação da tua existência; coloque como valor absoluto o be...

MENSAGEM DO SANTO PADRE LEÃO XIV PARA O TEMPO DA QUARESMA:

  Escutar e jejuar. Quaresma como tempo de conversão   Queridos irmãos e irmãs! A Quaresma é o tempo em que a Igreja, com solicitude maternal, nos convida a recolocar o mistério de Deus no centro da nossa vida, para que a nossa fé ganhe novo impulso e o coração não se perca entre as inquietações e as distrações do quotidiano. Todo o caminho de conversão começa quando nos deixamos alcançar pela Palavra e a acolhemos com docilidade de espírito. Existe, portanto, um vínculo entre o dom da Palavra de Deus, a hospitalidade que lhe oferecemos e a transformação que ela realiza. Por isso, o itinerário quaresmal torna-se uma ocasião propícia para dar ouvidos à voz do Senhor e renovar a decisão de seguir Cristo, percorrendo com Ele o caminho que sobe a Jerusalém, onde se realiza o mistério da sua paixão, morte e ressurreição. Escutar Este ano gostaria de chamar a atenção, em primeiro lugar, para a importância de dar lugar à Palavra através da  escuta , pois a disponibilidade para e...

Texto do Consistório acerca da Liturgia - Cardeal Arthur Roche (Pref. do Dicastério para o Culto Divino e Disciplina dos Sacramentos)

 Texto sobre a Liturgia, as suas reformas e a sua atualidade que o Cardeal Roche distribuiu durante o último consistório: CONSISTÓRIO EXTRAORDINÁRIO (7–8 de janeiro de 2026) Liturgia: reflexão teológica, histórica e pastoral aprofundada, “para conservar a tradição sã e, ao mesmo tempo, abrir o caminho a um progresso legítimo” (SC 23). Liturgia Cardeal Arthur Roche 1.  Na vida da Igreja, a Liturgia sempre passou por intervenções de reforma. Da "Didaché" à Tradição Apostólica; do uso da língua grega ao da língua latina; dos "libelli precum" aos Sacramentários e aos "Ordines"; dos Pontificais às reformas franco-germânicas; da liturgia segundo o uso da Cúria Romana à reforma tridentina; das reformas parciais pós-tridentinas à reforma geral do Concílio Vaticano II. A história da Liturgia, poderíamos dizer, é a história de seu contínuo “reformar-se”, num processo de desenvolvimento orgânico. 2.  São Pio V, ao enfrentar a reforma dos livros litúrgicos em cumprime...

Sacrosanctum Concilium 50 anos depois – A reforma litúrgica: uma avaliação.

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  Cesare Giraudo SJ.   1. A Constituição Sacrosanctum Concilium e a liturgia Não é possível resumir em poucas linhas aquilo que representa para a Igreja de hoje a constituição Sacrosanctum Concilium . Esta tem descerrado horizontes velados há tempos. Ela recordou, por exemplo, que “a liturgia é o cume para o qual tende a ação da Igreja e juntamente a fonte da qual promana toda a sua força (SC 10). Ela enfatizou várias vezes que todos os fiéis fossem formados “àquela plena, consciente e ativa participação nas celebrações litúrgicas, o que é pedido pela própria natureza da liturgia” (SC 14; 11;19; 21; 27; 30; 41; 48; 49; 50; 79; 113; 114;121). Para iniciar este processo de renovação, a constituição reconheceu a Liturgia enquanto disciplina acadêmica, estabelecendo que “nos seminários e nas casas de formação religiosas, a liturgia fosse computada entre as matérias necessárias e mais importantes e, nas faculdades de teologia, entre as matérias principais (cf. SC 16). Antes de...