TRÍDUO PASCAL – Uma única páscoa.
A semana santa iniciou-se com a celebração na qual se fez memória da entrada do Senhor em Jerusalém para
viver a plenitude de sua vida e missão, a sua paixão, morte e ressurreição. Por
isso o Domingo de Ramos da Paixão do Senhor marca o começo desta semana. O seu
ápice é a celebração do mistério pascal de Cristo através do Tríduo Pascal.
A tradição eclesial
afirma que “o vértice das celebrações pascais e de todo o Ano Litúrgico é o
Tríduo Pascal “da Paixão e da Ressurreição do Senhor” (NUALC 18). Ao seu
interno, a Vigília Pascal é considerada como “a mãe de todas as santas
vigílias” (NUALC 21; PS 77).
Mas, se se fala em
tríduo, não seria natural que ele começasse na quinta-feira, contasse com a
sexta, e se encerrasse no sábado, para então celebrar o domingo de Páscoa? Esta
é uma concepção equivocada da contagem e da compreensão dos dias que o compõem.
Se faz necessário
compreender a forma como são marcados os dias litúrgicos na vida da Igreja. Existem
duas formas: a primeira diz respeito aos dias “ordinários”. Estes começam e
terminam à meia noite. A segunda diz respeito à celebração do domingo e dos
dias solenes, baseada no calendário lunar, onde tudo começa e termina com o pôr
do sol (a isto chamamos vésperas) (NUALC 3). Nesse sentido, a Páscoa é regida
por esse “segundo” calendário, configurando o Tríduo desta maneira: da Missa
vespertina da Ceia do Senhor (in Coena Domini) às celebrações vespertinas da
Sexta-Feira Santa, marcam o primeiro dia; das celebrações vespertinas da
Sexta-Feira Santa às vésperas do Sábado Santo, o segundo dia; das
vésperas do Sábado Santo às vésperas do Domingo de Páscoa, terceiro dia.
O Tríduo, portanto, não se configura como “preparação” para a Solenidade da
Páscoa. Ele é a própria celebração pascal em três dias ou momentos.
Para entender como
calcular a data da Solenidade Pascal é de máxima importância fazer uma
distinção preliminar entre a Páscoa judaica e a Páscoa cristã. Dom Jerônimo
Pereira, mestre e doutor em Liturgia ajuda a compreender este dinamismo
explicando que “a Páscoa judaica, na verdade, começa ao pôr do sol do décimo
quarto dia do mês de nisã (o nosso mês de março), em conformidade com o que
está descrito no livro do Êxodo (12, 18-20). No calendário judaico, cada novo
mês começa com a lua nova e, consequentemente, a Páscoa se sobrepõe à lua
cheia. Por outro lado, por definição, o ano judaico não pode começar na quarta,
na sexta ou no domingo. Logo, uma vez que a Páscoa é comemorada exatamente duas
semanas após o início do mês, essa só pode ser comemorada na segunda, terça,
quinta ou sábado. A Páscoa cristã, por sua vez, segue o cálculo da Páscoa
judaica com duas diferenças principais: 1. [Para a maioria dos cristãos] É
sempre celebrada no domingo, o dia da Ressurreição de Cristo, que, por sua vez,
é um dos dias proibidos para a Páscoa judaica; 2. Para o seu cálculo, usa-se o
calendário lunisolar eclesiástico gregoriano. Foi o Concílio de Nicéia (325
d.C.) quem determinou como fazer o cálculo: a Páscoa cristã deve ser celebrada
no domingo seguinte à primeira lua cheia após o equinócio da primavera (21 de
março). Caso a lua cheia ocorra às proximidades do dia 20 de março, portanto,
antes do equinócio (21 de março), faz-se necessário aguardar a próxima lua
cheia, depois da qual se celebrará a Páscoa. De forma muito simples, conclui-se
que deve ser sempre entre 22 de março e 25 de abril” (PEREIRA OSB, J. CELEBRAR
A UNIDADE DO TRÍDUO PASCAL, In ASLI).
Na reforma litúrgica
(1969) realizada pelo Concilio Vaticano II, mas já iniciada por Pio XII, com a
reforma da Vigília Pascal (1951) e da semana santa (1955), um passo importante
e decisivo foi dado. O Triduum Sacrum (O Sagrado Tríduo da paixão, morte e sepultamento) como era denominado mundou de nome. Esta nomenclatura viciava muito os dias celebrativos dando
ênfase somente aos eventos da morte e do sepultamento do Senhor. O nome foi
mudado para Triduum Paschale – Tríduo Pascal, em que se recupera a unidade dos
eventos da paixão, morte e ressurreição de Jesus. Na mudança do nome há uma
alteração na lógica ritual e na interpretação teológica, pois não se fragmentam
mais os eventos deste Mistério (ressaltando mais o aspecto da morte e do
sepultamento), mas une ao dinamismo da paixão e morte a realidade da
ressurreição.
O Tríduo Pascal é a
páscoa celebrada em três dias. Não se pode dividi-lo, pois os três
acontecimentos (paixão, morte e ressurreição) trata-se de um único Mistério.
Quando somente se celebra a paixão e a morte corre-se o risco de deixar o
evento da ressurreição como um outro evento totalmente aleatório. Assim, a
solenidade da Páscoa é diferente de todas as outras solenidades e festas do ano
litúrgico: não se trata de uma solenidade de apenas um dia. Mas de três dias
distintos que se igualam em solenidade, e que se perpetua num grande domingo de
páscoa que se chama tempo pascal.
O Tríduo Pascal toca a
vida e a humanidade do fiel em Cristo. Por isso, ele é uma verdadeira
ressignificação da experiência humana cristã.
Ao celebrá-lo plenamente (sem turismos religiosos, indo somente quando
se quer, ou mesmo escolhendo os dias mais “bonitos” ou menos “feios”), o cristão
católico é convidado a entrar na imensa gratuidade de Deus em Jesus, que
mergulha em nossa humanidade e se humaniza para nos divinizar.
A celebração memorial do
Tríduo Pascal visibiliza ao mesmo tempo passio e transitus: Pascha
(transitus) Christi, ou seja, Páscoa de Cristo, e Transitus
Christianorum (trânsito dos Cristãos) Páscoa dos cristãos. Assim, tem-se
uma Páscoa teológica (mais exatamente cristólogica) baseada na ideia da
imolação do Cordeiro que tira o pecado do mundo, e uma Páscoa antropológica
fundamentada na ideia da passagem, no cristão, da realidade da morte para a
vida em Cristo. Celebrar plenamente o Tríduo da paixão, morte e ressurreição do
Senhor é celebrar a centralidade da Fé do mistério da salvação e da redenção
de nossa humanidade, por isso, a Páscoa do Senhor é e sempre será a nossa
Páscoa.
Bibliografia:
NORMAS UNIVERSAIS DO ANO LITURGICO E
CELEBRAÇÕES, in Missal Romano. 3ª edição. Ed. CNBB. 2023.
PEREIRA O.S.B, J. CELEBRAR A UNIDADE
DO TRÍDUO PASCAL, In ASLI https://www.asli.com.br/artigos/celebrar-a-unidade-do-triduo-pascal
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