Sacrosanctum Concilium 50 anos depois – A reforma litúrgica: uma avaliação.

 


Cesare Giraudo SJ.


 1. A Constituição Sacrosanctum Concilium e a liturgia

Não é possível resumir em poucas linhas aquilo que representa para a Igreja de hoje a constituição Sacrosanctum Concilium. Esta tem descerrado horizontes velados há tempos. Ela recordou, por exemplo, que “a liturgia é o cume para o qual tende a ação da Igreja e juntamente a fonte da qual promana toda a sua força (SC 10). Ela enfatizou várias vezes que todos os fiéis fossem formados “àquela plena, consciente e ativa participação nas celebrações litúrgicas, o que é pedido pela própria natureza da liturgia” (SC 14; 11;19; 21; 27; 30; 41; 48; 49; 50; 79; 113; 114;121).

Para iniciar este processo de renovação, a constituição reconheceu a Liturgia enquanto disciplina acadêmica, estabelecendo que “nos seminários e nas casas de formação religiosas, a liturgia fosse computada entre as matérias necessárias e mais importantes e, nas faculdades de teologia, entre as matérias principais (cf. SC 16). Antes de tudo, preocupou-se com a formação especial dos destinados a ensinar a sagrada liturgia (SC 15), os quais por sua vez deverão transmitir aos clérigos “uma formação espiritual de caráter litúrgico” (SC 17) e deverão ajudar os sacerdotes que já trabalham na vinha do Senhor “a penetrar sempre mais no sentido daquilo que realizam nas funções sagradas” (SC 18).

A Constituição afirmou em letras claras que “A Santa Mãe Igreja deseja fazer uma acurada reforma geral da liturgia”, reconsiderando o ordenamento dos textos e dos ritos, de tal modo que as santas realidades por eles significadas, sejam expressas mais claramente e o povo cristão, o quanto possível, possa entende-los facilmente e participar lhes com uma celebração plena, ativa e comunitária (SC 21).

Ela inculcou que “a celebração comunitária, caracterizada pela presença e participação ativa dos fiéis”, é preferível à celebração individual ou quase privada (...) sobretudo da missa (SC 27). Propôs o ministério, não mais como o protagonismo exasperado de um só, mas sim um todo articulado de funções, recordando ao ministro que deverá limitar-se “a cumprir tudo e somente aquilo que, segundo a natureza do rito e as normas litúrgicas, é de sua competência” (SC 28). Excluiu que nas celebrações se fizessem preferencias em relação tanto às pessoas, quanto as condições socias (cf. SC 32).

Desejou expressamente que nas celebrações sagradas “seja disposta uma leitura das Sagradas Escrituras mais abundante, mais variada e melhor escolhida” (SC 35). Recomendou vivamente a homilia, como parte integrante da ação litúrgica, com a tarefa precisa de apresentar “os mistérios da fé e as normas da vida cristã, atingindo-as desde os textos sagrados (SC 52). Restaurou “a oração comum, dita também dos fieis” (SC 53), “uma perola – como dirá mais tarde Annibale Bugnini – que andava perdida e que agora foi encontrada em todo o seu esplendor[1].

Por sua vez, o desejo de abrir os tesouros da Bíblia se traduziu na preocupação de tornar compreensível a proclamação, embasada numa constatação tanto simples como corajosa. Assim recita o n.36: “o uso da língua latina, salvo direito particular, seja conservado no rito latino. Dado, porém, que, seja na missa ou nas celebrações dos sacramentos, seja em outra parte da liturgia, não raro uso da língua vernácula pode ser de grande utilidade para o povo, se conceda a ela uma parte mais ampla, especialmente nas leituras e nas monições, em algumas preces e cantos”. A questão da língua litúrgica retorna no n.54, que recita: “Na missa celebrada com a participação do povo, se conceda uma boa parte à língua vernácula, especialmente nas leituras e nas orações comuns. Todavia, se tenha o cuidado de que os fiéis possam recitar e cantar juntos, também em língua latina, as partes do ordinário da missa que tocam a eles.

Além do mais, a Constituição recomendou muito “aquela participação mais perfeita da missa, na qual os fiéis recebam o corpo do Senhor com o pão consagrado naquele mesmo sacrifício” e estabeleceu que, “permanecendo o princípio dogmático estabelecido por Trento, a comunhão sob as duas espécies pode ser concedida aos clérigos, religioso e aos leigos (SC 55). Ainda: nos devolveu “a concelebração, que manifesta de modo apropriado a unidade do sacerdócio” (SC 57). 

2. Reforma ou restauro.

Passados cinquenta anos desde a conclusão do Vaticano II ocorre ainda de encontrar católicos, de diferentes idades, classe sociais e organismos eclesiais, que não escondem a perplexidade nos embates frente àquela que se convencionou denominar “reforma litúrgica”, se perguntando se ela era de fato necessária, se não seria mais sábio deixar as coisas como estavam, se um concílio não teria feito melhor evitar de apresenta-la como a fina flor de seus trabalhos.

A quem ainda acredita na imutabilidade das normas relacionadas ao culto, e, portanto, se recusa a aceitar a ideia da reforma litúrgica, convém recordar que na história do antigo Israel, houveram revisões e adaptações no que tocavam as normas do culto. Em 621 a.C, ocorreu a transformação da celebração anual da páscoa, de um rito doméstico, “por família” (Ex 12,3) à uma celebração ao interno do templo, a realizar-se ao, por isso, em Jerusalém. No século I, a inserção do “Bendito sejas tu, Senhor, nosso Deus, rei do mundo”, no início da oração judaica das bênçãos. Mais tarde ainda, com a destruição do templo, em 70 d.C, a oferta do sacrifício cruento, o conteúdo teológico da imolação e manducação do cordeiro pascal foi substituído pelos pães ázimos, que “a comunidade deve consumir em memória da oferenda pascal que se comia quando já se estava satisfeito”[2].

No âmbito cristão, as reformas litúrgicas não faltaram. Basta pensar nas decisões do Concílio de Nicéia, em 325, de vincular a celebração da páscoa cristã com o domingo. Pense na reforma do Missal Romano e dos outros livros litúrgicos desejadas pelo Concílio de Trento e realizada por Pio V; também, à reforma de Pio X acerca da comunhão eucarística frequente (1905); ou ainda, a reforma de Pio XII, concernente à forma ritual do sacramento da Ordem (1947), a disciplina do jejum eucarístico e introdução das missas vespertinas (1935), os ritos da semana santa (1955); por fim, a reforma do missal romano e dos outros livros litúrgicos desejadas pelo Concílio Vaticano II e levada à termo por Paulo VI. Mas estas foram todas verdadeiras reformas propriamente ditas?

Uma satisfatória resposta ao tema emerge do exame da terminologia presente na Sacrosanctum Concilium. Quem, folhando as páginas da edição típica latina da Constituição sobre a sagrada liturgia, pretendesse encontrar um número elevado dos termos “Reformare/reformatio” ficaria decepcionado, uma vez que estas palavras não aparecem nem ao menos uma vez. Em seu lugar, correspondendo ao que as traduções geralmente significam com reformare/reforma (raramente com restaurare/restauração ou renovar/renovação) a dupla de termos instaurare/instauro aparece vinte e uma vezes. A diferença não pode ser desprezada. Enquanto “reformar” significa “dar forma novamente”, isto é, no sentido de dar a um artefato uma nova forma que pode nem ser a original, em vez disso, o verbo instaurare (intensivo de staurare, que por sua vez é causativo de “estar”) significa fazer estar de novo, ou seja, trazer algo de volta ao seu estado original, exatamente no sentido expresso pelos termos “instaurare/reforma”. Imaginemos um edifício que tenha atravessado os séculos, por exemplo, uma igreja, onde na fachada original em puro românico se acrescentasse elementos góticos, depois renascentistas, e, por fim, barrocos e assim por diante. Ao desconforto devido a sobreposição de estilos não há outro remédio senão trazer novamente a fachada à sua pureza original.

Revisitando os casos citados, diremos, portanto, que foram verdadeiras e próprias reformas a transformação da páscoa hebraica de rito doméstico em rito do templo, a imposição à oração judaica do Incipt das bençãos, a substituição do cordeiro pascal pela azima, e a ligação da páscoa cristã com o domingo. Por outro lado, foram obras de restauração todas as que mencionamos acima. Em qualquer caso, mesmo que continuemos a falar de Reforma Litúrgica de acordo com o vocabulário estabelecido, devemos ter presente que uma coisa é uma reforma, outra coisa é uma restauração. De igual modo não devemos nos esquecer que as tarefas, tanto de reforma, quanto de restauro são sempre executadas para se andar avante, nunca para retroceder, uma vez que a história não dá marcha ré.

3. O sonho de Pio V: restituir ao Missal a normativa ritual original dos Santos Padres (ad pristinam sanctorum Patrum normam).

Constatando a grande variedade dos missais então em uso nas diversas dioceses e famílias religiosas, ao qual se acrescentavam costume devocionais fantasiosos, supersticiosos e simoníacos, o Concílio de Trento determinou que fossem revistos e corrigidos os livros litúrgicos, em particular o missal. Naturalmente, não cabia ao Concílio realizar uma revisão semelhante, que foi, portanto, confiada ao papa. Prontamente realizada por Pio IV foi levada a termo por seu sucessor Pio V, que em 1570 pôde promulgar o Missale Romanum ex decreto ss. Concilii Tridentini restitutum. As linhas mestras que acompanharam a revisão são resumidas na bula de promulgação Quo Primum: “Entre os outros decretos do Sacro Concílio de Trento, ficava incumbido o dever de cuidar da edição corrigida dos livros sacros (...). Era já necessário que se pensasse o quanto antes àquilo que restava ainda por fazer nesta matéria, isto é, a publicar o mesmo missal. Por isso, tínhamos o dever de confiar este gravoso trabalho a homens de eleita doutrina, os quais, depois de diligentemente confrontar todos os códices (...), com aqueles antiquíssimos de nossa biblioteca vaticana (...), restituíram (restituerunt) o missal à originária normativa ritual dos santos padres (ad pristinam sanctorum patrum normam ac ritum).

O projeto tridentino, analisado pelos verbos emendare (corrigir), castigare (corrigir), purgare (purificar) e restituere (restituir) mirava fazer compreender aos sacerdotes “quais orações deverão utilizar, e quais ritos e cerimônias deverão, de agora em diante, observar durante a celebração da missa”. Entre os méritos do novo missal se podem enumerar a redação de Rubricae generales Missalis e de um Ritus servandus in celebratione Missae, a redução das missas votivas e dos prefácios, a revisão do calendário, a purificação dos textos, entre outras. Enquanto os méritos do Missal de Pio V vão creditados ao seu promulgador, em vez disso não se pode de forma alguma atribuir a ele os relativos limites, devido a um conjunto de circunstâncias históricas, religiosas e culturais que não permitiam outras escolhas. Não se pode reprovar o fato de se ter aberto o uso da língua local na liturgia, porque os tempos não eram maduros, nem de não ter retomado o uso da oração dos fiéis, pois faltavam as condições cientificas para a sua redescoberta. Por outro lado, não se pode ignorar que a missa privada permanecia como forma típica; que o acento rubrical era pensado somente para o sacerdote; que quando se acenava para os que circundavam o altar (no Cânon), estes eram somente o clero; que o leitor era sempre o sacerdote; que não se falava de homilia; que a assembleia era deixada nas sombras.

De sua parte, os fiéis não se davam contam da repetitividade dos textos, dado que não entendiam o latim. Quando era para cantar, cantavam. Se a missa era em gregoriano, todos cantavam, com entusiasmo, exercícios de canto que sabiam de memória. Às vezes, nas ocasiões solenes eram obrigados a se calar, porque intervinha um coral externo, muito experiente, com páginas grandiosas, sempre a muitas vozes. Quando não se cantava, as pessoas simples recitavam o rosário, do qual se reconhece o grande mérito de ter nutrido a fé de geração em geração, uma vez que não era possível acessar os conteúdos da liturgia.

Às pessoas mais evoluídas na vida no Espírito, se aconselhava de relacionar cada momento da missa com outros tantos momentos da Paixão do Senhor. Para designar este gênero de missa meditada, alguns a denominaram de “missa dramatizada”, outros de “missa alegórica”, outros ainda de “missa picta” ou “missa pintada”, enquanto com frequência nos livros de devoção a explicação era simplificada por desenhos adequados que relacionam os momentos da missa a vários momentos da Paixão. Singularmente hábil se mostrou Bartolo Longo, que num de seus pequenos manuais de piedade intitulado “Modo de escutar a Santa Missa”, retratou o sacerdote no altar aos atos correspondes aos diversos momentos da celebração, tendo a prudência de variar, para cada cena, o sujeito da grande pala do altar para assim representar o momento da Paixão sobre o qual se devia meditar. Por exemplo, enquanto o sacerdote lê a epístola, o fiel é convidado a ver Jesus Cristo acusado diante de Pilatos; quando o sacerdote lê o evangelho, o fiel deve contemplar a Jesus declarado louco por Herodes e mandado de volta para Pilatos[3]. Qualquer que fosse a leitura escolhida era como se o sacerdote dissesse: “não vos preocupeis com a leitura que faço: quando leio a epístola pensai sempre Cristo diante de Pilatos; quando leio o evangelho, pensai sempre em Jesus diante de Herodes”; e assim por diante para toda a celebração.

Retornando à Bula de Pio V, encontramos a monição muitas vezes repetidas e retomada de modo peremptório na clausula final: “(...) e, em força de uma ordem precisa, com esta nossa constituição valida perpetuamente, estabelecemos e ordenamos, sob pena de nossa indignação, que a este nosso Missal, publicado recentemente, nada se acrescente, retire ou se altere (...). Se alguém tiver a presunção de atentar contra isso, saiba que incorrerá na indignação de Deus Onipotente e de seus beatos Pedro e Paulo (...).” O tom ameaçador se enquadra no contexto histórico: era a primeira vez que se preocupava em unificar a práxis celebrativa de toda a Igreja de rito latino. Em suma, é necessário reconhecer que o grande pontífice fez de tudo que a sensibilidade litúrgica-pastoral e o conhecimento de então permitiam. A veneração que circundou e tem circundado o seu missal atesta.

Todavia, reconhecendo o empenho com o qual Pio V afrontou o dever que lhe fora confiado pelo Concílio, recolocar o missal ao aspecto que possuía no tempo dos santos padres, a nós resta a obrigação de perguntar se este escopo foi verdadeiramente realizado, além disso, se o trabalho desenvolvido foi verdadeiramente a altura que se exigia de um projeto como esse. Em relação à primeira pergunta, os historiadores da liturgia não hesitam afirmar que o novo missal outro não era que o “Missale secundum consuetudinem Romanae Curiae”, retocado aqui e ali, mas fundamentalmente o mesmo[4]. Efetivamente, “os homens de eleita doutrina” que flanquearam o pontífice não dispunham, nem podiam dispor, daquela documentação e daquela metodologia de pesquisa que só hoje é acessível aos responsáveis pelas ciências litúrgicas. Se tratou, em suma, de um sonho, vale dizer, um desejo, de uma vontade sincera, que honrando o projeto de então, o redimensiona[5]. Foi assim que este ambicioso e incompleto projeto do Concílio de Trento e de Pio V foi retomado por outro Concílio e por outro pontífice.

4. O Missal de Paulo VI: coroação de um sonho.

Àqueles que queriam fazer iniciar a tradição litúrgica com o Missal e a Bula de Pio V, que havia apresentado como definitivos, intangíveis e imutáveis, se recorda que a Tradição tem um respiro bem mais amplo do que um preciso seguimento de história possa fazer entender. Consciente desta ininterrupta continuidade ao longo de dois milênios de história, o Vaticano II novamente retomou a delicada obra de restauro. Assim recita a Sacrossanctum Concilium no n.50: “O ordinário da missa seja revisado, de modo que resulte mais claro a natureza específica de cada parte e suas mutuas conexões, e se torne mais fácil a piedosa e ativa participação dos fiéis. Portanto, os ritos, conservadas a sua substância tornem-se mais simples; se suprimam os elementos que, com o passar dos séculos, foram duplicados ou acrescentados menos utilmente; sejam restituídos (restituantur) à originária normativa dos santos padres (ad pristinam sanctorum patrum normam) aqueles elementos que com o passar dos séculos se perderam, na medida que parecerem oportuno e necessário”. Não é coincidência que essas palavras, que já notamos na bula de Pio V, apareçam na constituição conciliar. Elas estão lá para confirmar a clara vontade de retomar um projeto já em iniciado, mas que o condicionamento histórico-cultural não permitiu levar a termo. Em concreto, em que consistiu esta obra de restauro? Para ter a resposta basta comparar a divisão da missa nas rubricas gerais do missal de 1570 e do missal de 1970, respectivamente.

A estrutura da missa no Missale Romanum de 1570 se apresenta assim: “1) De principio missae et confessione facienda; 2) De Introitu, Kyrie eleison et Gloria in excelsis; 3) De Oratione; 4) De Epistola, graduali et aliis usque ad offertorium; 5) De offertorium et aliis usque ad Canonem; 6) De Canone missae usque ad Consecrationem; 7) De cânone post consecrationem usque ad orationem Dominicam; 8) De Orationem Dominicam usque ad factam communionem; 9) De Communione et orationibus post communionem dicendis; 10) De Benedictione in fine Missae et evangelio Sancti Ioannis”[6]. Com base nessa divisão, que com poucos ajustes se lê no último missal tridentino (1962), ninguém pode negar que a formula “De Epistola, graduali et aliis...” matava gravemente a liturgia da Palavra, como de resto a “Consecratio” conceitualmente isolada entre um “Canon Missae ante consecrationem” e um “Canon Missae post consecrationem” estava longe de evocar aquela exuberante compreensão que os Santos Padres tinham da Oração Eucarística.

Ao contrário, no Missale Romanum de 1970, a missa se articula em quatro divisões maiores, duas das quais se subdividem por sua vez: 1) Ritus Initiales; 2) Liturgia Verbi; 2.a) Lectiones Biblicae cum homilia; 2.b) Oratio Fidelium; 3) Liturgia Eucharistica; 3.a) Prex Eucharistica; 3.b) Communio; 4) Ritus conclusionis”[7]. Podemos estar certos de que nesta estrutura, felizmente redescoberta e recuperada, todos os santos padres se reconheceriam, começando por Justino. De fato, de sua celebre descrição da liturgia dominical emerge uma limpidez desarmante a estrutura que guiou o restauro do edifício litúrgico. Antes de tudo, a modo de moldura ritual, Justino menciona (na abertura) a reunião litúrgica de todos no mesmo dia e no mesmo lugar, e (na conclusão) o empenho caritativo. Ao interno dessa moldura se encontram, quase como uma tela de pintura, a liturgia da Palavra e a liturgia eucarística, com as respectivas articulações internas.

Desde a escola de Justino não temos então dificuldade de identificar na Liturgia da Palavra a presença de dois pilares estruturais, representadas respectivamente pela proclamação atualizadora da Palavra de Deus (leituras + homilia) e pela resposta suplicante da comunidade (oração dos fiéis). Se pudéssemos compendiar o primeiro pilar com a interpelação bíblica “Escuta, Israel” (Dt 6,4), resumiríamos a segunda com a interpelação também bíblica “Ouvi-nos, Senhor” (Dt 9,19). Da mesma forma identificamos dois pilares também para a Liturgia Eucarística, representadas respectivamente pela Oração Eucarística e Comunhão. Se pudéssemos resumir o primeiro pilar com a súplica “Te igitur, clementissime Pater, supplices rogamus ac petimus..”, expressaremos o segundo pilar dizendo “Panem nostrum cotidianum da nobis hodie”[8].

Consciente de ter agido, graças ao Consilium ad exsequendam Constitutionem de Sacra Liturgia, o restauro desejado pelos padres conciliares, Paulo VI assim afirma na bula Missale Romanum: “O recente Concílio Ecumênico Vaticano II, promulgando a Constituição Sacrosanctum Concilium, colocou as bases para a renovação geral (generalis renovationis) do Missal Romano, estabelecendo: a) que os textos e os ritos sejam ordenados de modo que expressem mais claramente as realidades santas que significam; b) que o ordenamento ritual da missa seja revisado de modo que transpareça claramente a natureza específica de cada parte e a sua mutua conexão; c) se torne mais fácil a pia e ativa participação dos fieis; d)  que “para apresentar com maior abundancia aos fiéis a mesa da Palavra de Deus sejam abertos mais amplamente os tesouro da Bíblia; e) por fim, que se redija um novo rito para a concelebração a ser inserido no Pontifical e no Missal Romano”. Além disso, quase para se precaver das acusações que hoje conhecemos, o Pontífice prossegue: “Não é preciso, todavia, pensar que esta renovação (renovatio) do Missal Romano tenha acontecido de modo improvisado: foram, sem dúvida, abertas as vias o progresso nas disciplinas litúrgicas realizadas nos últimos quatro séculos. Se, de fato, depois do Concílio de Trento, muito se contribuiu para a revisão do Missal Romano o estudo aprofundado dos antigos códices da biblioteca vaticana e de outras, recolhidas de cada parte, como diz a constituição apostólica Quo Primum de nosso predecessor São Pio V, a partir de então foram descobertas e publicadas as mais antigas fontes litúrgicas, e, ao mesmo tempo mais a fundo estudados os formulários litúrgicos orientais da Igreja. Dito isso, com uma clausula, menos traumatizante, mas não com menor autoridade que aquela precedente, o Pontífice conclui: “Todas as coisas que estabelecemos e ordenamos, desejamos que permaneçam validas e eficazes, agora e no futuro, não obstante o que possa haver em contrário nas constituições e nos ordenamentos apostólicos publicados por nossos antecessores e em outras disposições, também dignas de particulares menções e derroga.”

Querendo um retrato vivo da reforma litúrgica, devemos reconhecer que as luzes são tantas quanto são as sombras. Com isso pretendemos dizer que a resposta ao projeto que emerge das Praenotanda dos livros litúrgicos, depois de cinquenta anos de sua promulgação, deixa ainda muito a desejar. Limitando-se ao rito da missa, devemos reconhecer que a reforma litúrgica soube simplificar os ritos iniciais, focando sobre a saudação inicial, tornado a constituir, como no tempo dos Padres, o elemento importante. Com certeza, se São João Crisóstomo, que nos deixou mistagogias acerca da saudação inicial, entrasse hoje em nossas igrejas teria muito a dizer seja ao sacerdote que o faz sem convicção, ou o substitui com um banal “bom dia”, seja a assembleia que faz distraidamente, ou que o responde também com um banal “Bom dia a você também”[9].

5. A Liturgia da Palavra: muito se fez, muito resta ainda por fazer.

Agora voltemos a atenção para o primeiro pilar estrutural da Santa Missa, isto é, a Liturgia da Palavra. Devemos reconhecer que a reforma litúrgica fez descobrir, com o uso da língua vernácula as riquezas da Palavra de Deus, sobretudo sintonizando os ouvidos da Igreja na escuta da voz de Deus que fala por meio da boca ministerial do leitor. Mesmo se hoje a compreensão pareça assegurada, resta ainda muita estrada pela frente. Acima de tudo na preparação dos leitores, que não estão sempre a altura do dever. Desde a generosa oferta feita por Paulo VI com a instituição do Leitorato muitos agentes de pastoral responderam “não, obrigado”, deixando livre o ministério do leitor. Não é frequente ver no ambão leitores recentes, leitores improvisados, leitores selvagens que não tem nenhuma familiaridade (intimidade, conhecimento profundo, habilidade) com a Palavra de Deus nem com as exigências requeridas para a sua proclamação. Às vezes, quando termina a leitura, o leitor está farto porque comeu tantas silabas, enquanto a assembleia está em jejum, por não ter compreendido nada. Muito frequentemente acontece que a Palavra de Deus, mesmo com as melhores das intenções, vem literalmente massacrada, dessacralizada, sofrendo uma mudança radical; mas poucos gritam diante do escândalo, ou porque não sabem ou porque não ousam. Além disso, a reforma litúrgica fez compreender a importância da homilia, que, a propósito, os padres sinodais de 2008, constatando a sua não boa saúde, sugeriram oportunos remédios.

A reforma litúrgica descobriu, depois de quinze séculos de esquecimento, a Oração dos Fieis, em obediência à Sacrosanctum Concilium que no n.53 estabelece: “Seja restituída (restituantur) depois do evangelho e da homilia a oração comum dos fieis”. Hoje sabemos que tal recuperação foi possível graças a redescoberta daqueles vestígios que recebem o nome técnico de “prieres du prone”. Todavia é desolador constatar a pouca atenção o sínodo dos bispos de 2008 sobre a Palavra de Deus tenha prestado a esta súplica. Em todos os materiais sinodais, a Oração dos Fieis é mencionada com uma moderação desarmante, contra uma recorrência felizmente elevada da palavra Homilia[10]. Se é obrigatório cumprimentar as conferencias episcopais pelo envio de numerosos biblistas, o mesmo não se pode fazer a menos que se critique as mesmas conferências por não terem enviado delegados suficientes para garantir uma abordagem litúrgica adequada. Em síntese: tratando a Liturgia da Palavra como se ela se concluísse com a homilia, os padres sinodais não se fastaram do missal tridentino.

Existe ainda muito por fazer a fim de sensibilizar sacerdotes e fieis a reconhecer a importância desta súplica, que constitui a resposta suplicante a Deus que nos interpelou com Sua Palavra. Se Justino e os mistagógicos da Igreja primitiva dizem que a Oração dos Fieis é uma súplica, deixemos que seja assim, e não a transformemos numa profissão de fé, nem numa efusão de sentimentos. Neste momento, aprendamos a suplicar, contentemo-nos com isso, para pedir a Deus a graça necessária de traduzi-la na prática, no concreto da nossa existência e de nossas forças tudo quanto a Sua Palavra nos fez compreender. Respeitemos a sua fisionomia de súplica, e não a transformemos numa rima de experiências horizontais que vão se impondo conforme uma estereotipia pobre.

6. A Liturgia Eucarística: muito foi feito, mas o muito é ainda tudo por fazer.

Nos dirijamos, agora, à Liturgia Eucarística, que constitui a segunda coluna estrutural da Missa. A reforma litúrgica recuperou a Oração Eucarística em voz alta, sintonizando por sua vez os ouvidos de Deus com a voz da assembleia concelebrante que fala através da boca ministerial do sacerdote[11]. Todavia, se deve ter em conta que a Oração Eucarística – aquela oração com a qual desde sempre a Igreja faz a Eucaristia – permanece ainda a “grande desconhecida”[12], nem consegue transmitir a sua fascinante riqueza.

Depois de cinquenta anos da Sacrosanctum Concilium, continua a se reduzir conceitualmente a Oração Eucarística somente à consagração, na convicção – não mais inclusiva, mas exclusiva – que a consagração é o coração dela, esquecendo-se que ela é um corpo literário-teológico estruturado na dinâmica de suas articulações e, que, portanto, como acontece num organismo vivo, aquele coração que é a consagração subsiste unicamente correlação interativa com todas as outras componentes do corpo.

Colocando a narrativa institucional num tipo de isolamento de ouro, a especulação teológica não estaria mais em grau de recolher a sua dependência natural da anamnesi, a sua referência dinâmica à dúplice epiclese, em particular a epiclese escatológica, na qual se pede que aqueles que farão a Comunhão sejam transformados “in unum corpus”. De fato, a teologia católica cultivou inconscientemente aquela compreensão eucarística que a teologia reformada não teve medo de traduzir em ato[13]. Se a Igreja Católica consegue fugir daqueles abalos aos quais cedeu a Igreja da Reforma, se deve a um fator de todo contingente, ou, se desejarmos, verdadeiramente providencial. Me refiro a devoção absoluta, da parte católica, ao Cânon Romano, por séculos considerado como de origem apostólica. Se não fosse este apego incondicional ao antigo cânone, do qual, aliás, já não se compreendia mais a lógica interna, é permitido supor, raciocinando em termos humanos, que algum deslize grave na prática celebrativa seria, seguramente produzido, do momento em que os católicos, não menos que os reformados, estavam sob o influxo da mesma “mens” paralisante e estática.

Num determinado tempo, na Igreja Latina, muitos sacerdotes se lamentavam porque dispunham somente do Cânon Romano. Para vir ao encontro desta compreensível lamentação, a reforma litúrgica colocou ao lado da antiga oração, denominando-a agora Oração Eucarística primeira, outros nove formulários oficiais: algumas de excelente composição, como a II, III e a IV Oração Eucarística[14]; outras, objeto de revisão oficial, como a “Oração para diversas circunstâncias”, vale dizer, o cânone suíço-romano, na sua quadriforme fisionomia[15]; outras ainda em espera de uma robusta revisão, como as duas “orações sobre reconciliação”[16]; outras, por fim, como a “oração eucarística para a missa com as crianças, um tanto quanto problemática pelo fim que guiou a sua redação[17].

Hoje, no entanto, deve ser reconhecido que, na prática, existe apenas uma Oração Eucarística na Igreja Latina, precisamente aquela que, há anos, desenvolve uma espécie de ecumenismo interno já que a ela recorrem sistematicamente, num percentual preocupante, sacerdotes de varias idades (desde os mais jovens aos anciãos) e de cada tendencia socio-eclesial (da extrema esquerda à direita declarada). O fato de que a Oração Eucarística II corresponda às paginas mais surradas de nossos missais revela um desejo mal escolhido para poder se livrar logo disso. Depois da oração sobre as oferendas, ou, mais frequente, depois do Santo, não é raro de perceber o olhar do sacerdote para o seu relógio, confirmando uma escolha já programada. Não era esta, com certeza, a intenção da reforma litúrgica quando inseriu ao lado do venerável Canone Romano os novos formulários.

A este real “vulnus” das nossas celebrações, consistente na corrida desenfreada da Oração Eucarística II, que a sua brevidade a coloca na pole position, urge remediar através da formação acadêmica dos futuros ministros e formação permanente de quantos exercem o ministério. Urge sensibilizar os sacerdotes a uma série de valores. Em primeiro lugar, ao fato de que a Oração Eucarística é “culmen et fons” da oração da Igreja, porque com ela – somente com ela – que se faz o corpo sacramental, destinado a realizar o corpo eclesial[18]. Se faz necessário, portanto, sensibilizar os sacerdotes a escolher a Oração Eucarística, sem desdenhar do monumento eucológico que é o Cânon Romano, ou a Oração Eucarística IV, que apresenta uma profundidade histórico-salvífica exemplar.

Além disso, seria bom ensinar aos sacerdotes, caso tenham optado por uma Oração Eucarística com prefácio variável, a escolher o prefácio. Na tradição do Cânon Romano, a multiplicidade dos prefácios não deve induzir a pensar que, sob o perfil da forma e do conteúdo, todos os prefácios se equivaleriam. A partir de uma leitura transversal deles, sejam orientais ou ocidentais, emergem constantes bem precisas. Uma destas, direi a principal, é a dimensão trinitário-cristológica do prefácio, o qual não pode ceder espaço para uma dimensão agiologica ou catequética. Se a polarização agiocentrica, a qual transparece desde a motivação central de não poucos prefácios dos santos, se transforma num tipo de panegirico do santo do dia ou da família diocesana ou religiosa que o venera, a polarização catequética de alguns prefácios da quaresma dá a impressão que o redator preferiu recordar aos fiéis a importância do renovamento espiritual, da penitência e do jejum. Por meio de uma exegese rubrical muito telogica que literal, cada sacerdote deveria individuar no missal, os seus prefácios preferidos, privilegiando aqueles enriquecidos da dimensão histórico-salvífica, trinitária e cristológica.

Sensibilizando sempre mais à Ars Celebrandi, o sacerdote deveria convencer-se que a Oração Eucarística não se lê, não se recita, mas se “pro-clama”, vale dizer, se “grita” diante de Deus, obviamente com adequado tom sacro, ou seja, com voz forte, firme, nunca apressada. O sacerdote, na realidade – como diz Teodoro de Mopsuestia – é a língua comum da Igreja[19]. Qualquer que seja a disposição do altar – se de frente para o povo ou de frente para abside – o sacerdote deverá ver-se e sentir-se quase fisicamente diante de Deus-Pai, ao qual está falando em nome de toda a assembleia, para recordar-lhes, quase como para colocar-lhes na mente[20], toda a história da salvação. Ele o bendiz e rede graças porque à sua imagem formou o homem e ele confiou o mundo inteiro, porque muitas vezes ofereceu aos homens a sua aliança, e por meio dos profetas os educou na espera da salvação; porque na plenitude dos tempos nos enviou o seu Filho como salvador, que nasceu da virgem Maria, que anunciou o evangelho da salvação aos pobres, que na véspera de sua paixão tomou o pão e disse... tomou o cálice e disse... depois acrescentou: fazei isto em memória de mim”. Por fim, o sacerdote prossegue: “Fazendo, pois, o memorial de Sua morte e ressurreição, nós vos oferecemos este pão e este cálice, e pedimos: envia o teu Espirito Santo sobre nós e sobre estes dons para que leve à plenitude o acontecimento da transubstanciação dos dons no corpo sacramental, a fim de que todos nós que estamos por comungar no corpo sacramental sejamos transubstanciados no corpo eclesial[21]”.

As mesmas palavras da instituição que o sacerdote pronuncia no momento da consagração, como sendo palavras de Cristo, são ditas evidentemente pelo humilde ministro da Igreja. Na realidade, naquele momento o sacerdote celebrante não é nem o Jesus do cenáculo que fala à comunidade apostólica, nem o Ressuscitado que senta à direita do Pai: ele é e permanece o ministro autorizado da Igreja, o qual, continuando a falar ao Pai, profere aquelas santas palavras em nome da Igreja que suplica com as palavras de Cristo (In persona Ecclesiae orantis sermone Christi). As palavras da consagração são as palavras de Cristo, mas agora não imediatamente em sua boca, mas sim nos lábios da Igreja, autorizadamente representada pelo ministro ordenado. E vice e versa, o ministro ordenado é, em virtude da ordem de reiteração recebida por ele na eminente medida, a única voz autorizada da Igreja habilitada a pronuncia-la[22]. Estas considerações, que exigem um adequado estudo litúrgico-teológico para traduzir por sua vez numa gradual mistagogia, deveria ajudar aos sacerdotes e fieis a redescobrir a dimensão dinâmica da consagração, indevidamente ou por muito tempo isolada, estatizada e devocionalizada.

Bem sabendo que neste artigo procedemos a voo de pássaro, restringindo de propósito o amplo horizonte da Sacrosanctum Concílium à liturgia da Missa, dizemos ainda que a reforma litúrgica, valendo-se do trabalho feito pelos mestres do espírito do século XVI – Inácio de Loyola[23] – e, autorizadamente ordenada por Pio X e Pio XII, fez redescobrir aos fiéis a necessidade de se receber com frequência a comunhão sacramental, a verdadeira, a instituída pelo Senhor, que a precedente insistência cautelar em favor da comunhão espiritual tinha obscurecido. Ao lado destas duas luzes restam duas sombras. Uma, devido ao fato de que em muitos lugares se continua a distribuir a comunhão servindo-se sistematicamente das reservas eucarísticas, não obstante o convite a distribuir a comunhão com a hóstia consagrada na mesma missa. Outra está na difusa apatia mostrada em relação à recuperação da comunhão sob as duas espécies para os fiéis leigos. Não atendendo a este dom da reforma litúrgica, de fato sob o plano celebrativo continua a se comportar como se o Senhor tivesse instituído a eucaristia somente sob a espécie do pão. Não será certo uma leitura redutiva de um pronunciamento tridentino[24] de tornar vão o mandamento conjunto a comer e beber, repetidamente proclamado pelo Senhor na sinagoga de Cafarnaum (“Quem não come a minha carne e não bebe o meu sangue...” Jo 6,48-58), e, sucessivamente reafirmado no momento da instituição (“tomai e comei... tomai e bebei”)[25]. Se o Senhor se expressou assim, alguma coisa em mente ele deveria ter. Não nos esqueçamos que, diante destas duas práxis latinas – uso equivocado do tabernáculo[26] e a comunhão sob uma única espécie – que oscilam entre desempenho ministerial e minimalismo sacramental, os cristãos do oriente ficam escandalizados.

Cinquenta anos depois do documento conciliar que quis ardentemente restaurar o edifício litúrgico, não há outra opção que constatar que o objetivo não foi ainda atingido. Sendo um projeto perfeito a nível dos textos programáticos, vale dizer a Sacrosanctum Concilium e os documentos pós-conciliares intencionados a cuidar da missa, não consegue fazer com que as pessoas entendam a importância de cuidar de sua realização. De nossa parte, estamos convencidos de que a reforma litúrgica esta a tempos doente pelo simples motivo de que seus condutores atuais a receberam de maneira frágil, frequentemente epidérmica e superficial. Se trata de uma enfermidade a ser curada, não de um enfermo a ser suprimida a sua existência. Se espera sobretudo dos formadores dos atuais e futuros ministros o dever de prover-lhes através de um ensinamento, não somente rubricista, mas sobretudo histórico, litúrgico e teológico, que olhando também para a liturgia do oriente, ajude a compreender melhor a liturgia do ocidente. Compete aos bispos vigiar, cabe aos superiores religiosos também, já que não é raro que seja justamente nas suas próprias comunidades que se enfraquece aquele autêntico sentimento de estar em comunhão com a Igreja (sentire cum ecclesia) que não pode ser dissociado da dimensão sagrada da liturgia.


[1] A. Bugnini, La reforma litúrgica (1948-1975), Ed. Liturgiche, Roma 1997, 400.p.

[2] Para a reforma aqui evocada, cf. C. Giraudo, Num só Corpo. Tratado mistagógico sobre a eucaristia. Edições Loyola, São Paulo, Brasil 2003, 103-136.

[3] B. Longo. Modo di udire la Santa Messa. Pompei 1943.

[4] Sobre a história do Missal cf. P. SORCI, “Il Messale Romano come strumento della tradizione celebrativa”, in C. Giraudo (ed), Il Messale Romano. Tradizione, traduzione, adattamento, Edizioni Liturgiche, 2003, 37-38.

[5] Escreve a proposito Josef A. Jungmann: “Não há que se surpreender que esse objetivo tão elevado não tenha sido alcançado senão em pequena parte; mesmo que se tivesse tido acesso a fontes muito mais ricas, não se poderia esperar que uma comissão de poucos homens, chamados a um trabalho prático, pudessem vir em posse, num par de anos, daquelas cognições histórico-litúrgicas que eram destinados a amadurecer para a cooperação de muitos somente na virada de séculos”. (Missarum Sollemnia, Ancora, Milão 2004, I, 117)

[6] M. SODI & A. TRIACCA (ed), Missale Romanum (Editio Princeps, 1570).

[7] Missale Romanum, editio typica tertia, 2002, 30-39 (De singulis Missae partibus).

[8] Para uma representação gráfica da estrutura da missa, a qual emerge do testemunho de Justino e que reencontramos no missal de Paulo VI, cf GIRAUDO, C, Num só corpo, 568-569.

[9] Sobre a teologia da Saudação Inicial, cf, GIRAUDO, C, Admiração eucarística. Para uma mistagogia da Missa através dos ritos e das preces. LEV Roma, 2011.

[10] Enquanto a voz Homilia aparece no material sinodal uma centena de vezes, sem contar as numerosas recorrências da palavra Pregação usada com valor sinonímico, ao contrário a “oração dos fieis” (oração universal) é mencionada só quatro vezes. Para uma avaliação dos trabalhos sinodais, cf, GIRAUDO, C, “Aiutare l’assemblea ad ascoltare la Parola. Natura e finalitá dell’omelia litúrgica”, in Revista Liturgica 95 (2008), 981-1000.

[11] Sobre a distinção entre matéria inteligência da Oração Eucarística, se torna possível a partir da gradualidade com a qual foi conduzida a passagem da língua latina para a língua nacional, e a inteligência teológica está subordinada a ela, cf. GIRAUDO, C, Nun só Corpo, 515-518.

[12] É o caso de adaptar à Oração Eucarística, cinquenta ano depois da Constituição Sacrosanctum Concilium, o título do célebre livro de Alexis Carrel, L´homme, ce inconnu, 1943.

[13] Sobre a redução da missa somente à consagração, cf, GIRAUDO, C, Num só corpo, 467-472.

[14] Para a analise do Cânon Romano e das três novas orações eucarísticas, cf, GIRAUDO, C, Num só corpo, 381-414

[15] Para analise deste novo formulário, cf, GIRAUDO, C, Num só corpo, 414-419. Para a sua história e sua revisão sob incumbência da Congregação para o Culto Divino, Preghiera eucaristiche per la Chiesa di oggi. Riflessione in margine al commento del canone svizzero-romano, Gregorian University Press & Morcelliana, Roma & Brescia 1989.

[16] Para um ensaio de revisão destes dois formulários, cf GIRAUDO, C, “Preces Eucharisticae de reconciliatione. Analise della progressione temática alla luce della struttura anafórica, in Messale Romanum, 299-336.

[17] GIRAUDO, C, Preghiera eucaristiche per la Chiesa di oggi, 338-366.

[18] GIRAUDO, C, L’interazione dinâmica tra i due corpi di Cristo: dal corpus mysticum quod est sacramentum ao corpus Christi quod est ecclesia, in Revista di Teologia dell’evangelizzazione 17 (2013), 405-431.

[19] TEODORO, Seconda omelia sulla messa, 5, in R. TONNEAU & R. DEVREESE, 1949.

[20] Todos sabemos, por experiência, que quando se conversa com a pessoa amada, muitas coisas são contadas, bem sabendo que ambos já as conhecem. Mas o nosso interlocutor tem necessidade de que o digamos. E nós também. Ora, a dinâmica da psyche de Deus Pai não se distancia da nossa. Tendo nos criado a sua imagem, ele tem necessidade de que nós o recordemos, sobretudo na oração litúrgica, a sua e a nossa história relacional comum.

[21] GIRAUDO, C, cf, Num só corpo, 318-330

[22] GIRAUDO, C, cf, “In persona Christi – In persona ecclesiae”. Fórmulas eucarísticas à luz da lex orandi, in, Perspectiva Teológica 42 (2010), 187-203.

[23] BEGUIRIZTAIN, J. L’apostolato eucarístico di Sant’Ignazio di Loyola, Genova 2016.

[24] Não é possível invocar contra a comunhão sob as duas espécies nem o capítulo 3 e o correspondente cânone da XIII seção (DS 1341.1653), nem o capítulo 3 e o correspondente cânone da XXII seção (DS 1729.1733). Para a exegese destes textos, GIRAUDO, C, Num só corpo, 449-450. 455-456.

[25] Como bem atestado em Mt 26,26-27, e em parte em Mc 14,22, esta ordem é presente em toda as anáforas do Oriente e do Ocidente. Elas se identificam com a ordem de reiteração (“Fazei isto [o comer do pão e o beber do vinho] em memória de mim”.

[26] Não se pode esquecer que as reservas eucarísticas tem seu fim primário o viático aos moribundos e aos enfermos (DS 1645.1657). O fim secundário se reserva à piedade eucarística.


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