CURIOSIDADES LITÚRGICAS III - Ordo Exsequiarum Romani Pontificis - Missa Exequial do Romano Pontífice.

 

No sábado, 26 de abril, às 10h (horário local; 5h de Brasília), a Mãe Igreja eleva ação de graças pelo dom da vida ressuscitada do Santo Padre FRANCISCO, bispo de Roma e pastor da Igreja universal. A santa missa foi presidida por sua Em.Revma. Giovanni Battista Ré, Cardeal da Santa Igreja e Decano do Colégio Cardinalício. A celebração teve lugar na Praça de São Pedro. Se fizeram presentes as 24 Igrejas de Rito Oriental (Sui Iuris) em comunhão com a Sé petrina, o Colégio dos Cardeais, Bispos, prelados, presbíteros e diáconos, bem como o Santo Povo de Deus, uma delegação do patriarcado ecumênico de Constantinopla e também das Igrejas Reformadas, chefes de Estado e familiares do Pontífice falecido. Passamos para uma descrição da celebração eucarística com a análise de alguns elementos da Exéquias, propriamente dita.


Durante o Canto Inicial, os sediários trazem o caixão do Santo Padre para fora da Basílica e o depositam a frente do altar. O Maestro das Celebrações litúrgicas juntamente com os diáconos depõe um evangeliário sobre a tampa do esquife. O Decano, após incensar o altar e o círio pascal, incensa o caixão. Volta-se para o lugar da cadeira presidencial e inicia a Santa Missa.

A celebração eucarística transcorre, omitindo-se o hino de louvor (mesmo sendo oitava pascal). Após a Oração Coleta, tem-se a Liturgia da Palavra, seguida da homilia proferida pelo Decano do Colégio Cardinalício. Após, reza-se a Oração dos Fieis, com preces dirigidas em seis idiomas de modo a visibilizar a universalidade da Igreja, omitindo-se a Profissão de Fé. A Liturgia Eucarística desenvolve-se normalmente, com a o Prefácio dos Falecidos e Oração Eucarística III. Em seguida, o rito da comunhão. Segue-se a Oração pós-comunhão.

A liturgia finaliza-se com o rito das exéquias do Romano Pontífice com a Última Encomendação (Ultima Commendatio) e a Ladainha de todos os santos e a Despedida (Valedictio). Entre os dois momentos se insere a chamada Panikhida, as suplicas provindas da liturgia bizantina recitadas pelos representantes de cada uma das famílias Orientais.

No momento oportuno, o Cardeal vigário Para Diocese de Roma, S.Em.Revma Baldassare Reina presidirá as Exéquias. O Colégio dos Cardeais toma seu lugar ao redor do caixão do Romano Pontífice, juntamente com os Patriarcas, Arcebispos Maiores e os Metropolitas das Igrejas Metropolitanas Católicas de Rito Oriental (estes, voltados para o altar).

Após a monição feita pelo Celebrante, pela qual se expressa a fé na Ressurreição, e prepara o coração dos fiéis para suplicar a misericórdia pelo Pontífice defunto que tanto confirmou na fé seus irmãos nesta terra; se convida a suplicar ao Pai, pelo Filho no Espírito para que o Santo Padre seja resgatado da morte, acolhido na Paz, e seu corpo espere a ressurreição no último dia; confiando, por fim, à Bem-aventurada virgem Maria, Rainha dos Apóstolos e Salvação do Povo Romano (Salus Populi Romani) interceda para que Seu Filho Jesus volte sua face em favor do Papa e console a Igreja com a Luz da Ressurreição. A Schola entoa a Ladainha, que é concluída com uma prece.

“Ó Deus, que dais a justa recompensa aos operários do vosso Evangelho, acolhei em teu Reino vosso Servo e nosso Bispo, o Papa Francisco, que constituíste sucessor de Pedro e Pastor da vossa Igreja, e dai-lhe a alegria de contemplar eternamente os mistérios da Graça e da Misericórdia, que sobre a terra fielmente dispensou ao vosso povo. Por Cristo...”

Tem lugar a Panikhida, a súplica retirada do Ofício dos defuntos na Liturgia Bizantina. Toda ela, uma solene prece entoada em língua grega pelo coro, alternando com o Diácono e um dos Patriarcas que durante a oração incensa o caixão do Romano Pontífice. 


A Panikhida é profundamente cristológica e cristocêntrica; expressa a fé no Ressuscitado, que com a potência de sua vida conduz a alma do Pontífice falecido à Vida Feliz junto de Si, Grande Filantropo (amigo) da humanidade. A oração continua suplicando que o Senhor conduza ao lugar do repouso a alma do sucessor de Pedro, junto dos santos, porque só o Senhor é imortal. Segue-se uma doxologia trinitária. Em seguida, o coro retoma louvando à Cristo, que desceu aos ínferos e resgatou os homens das penas, e suplica reconhecendo-o como Salvador, que dê o repouso ao Bispo de Roma. Invocando a virgem Maria para que intercede pela salvação do Romano Pontífice. Há um crescendo nas primeiras invocações: Jesus é invocado como grande filantropo, Senhor Imortal e Salvador, evidenciando uma cristologia litúrgica ascendente.

Em seguida, o diácono do rito oriental, profere três preces às quais o coro Responde Kyrie Eleison. A primeira, para que tenha piedade de nós; a segunda, para que Deus conceda o repouso e que seja liberta a alma do Santo Padre de todo o pecado; a terceira reforça o pedido da primeira, e que seja libertada a sua alma de todas as penas. A prece proferida pelo diácono termina com um louvor a Cristo. Então, um dos patriarcas orientais se aproxima do caixão para incensa-lo, e, em seguida, pronuncia esta bela oração (tradução nossa):

"Deus das almas e de cada carne, que destruístes a morte, vencestes o diabo, e que doou a vida ao mundo, concedei o repouso para alma deste teu servo defunto Francisco, Bispo, num lugar de Luz e Alegria, num lugar verdejante, num lugar de felicidade onde não exista mais sofrimento, dor e lagrimas. Perdoai cada culpa por ele cometidas em palavras, obras e pensamentos, tu que és um Deus Bom e Amigo do homem; porque não existe homem que viva e não peque. Somente Tu és sem pecado; a tua justiça é justiça para sempre, e tua palavra é verdade. Porque Tu és a ressurreição, a vida e o repouso do teu servo Francisco, Bispo, que dormiu, ó Cristo, Nosso Deus; e Te rendemos glória com Teu Pai sem origem e Teu Espírito Santo, Bom e Doador de vida, agora e sempre, pelos séculos dos séculos.” O coro responde “Amém”, e ainda entoa um louvor: “Eterna é a tua memória, irmão nosso, digno de ser bem-aventurado e inesquecível. Amém”.

A inserção da Panikhida na liturgia exequial do Santo Padre tem um profundo e eclesiológico significado: a Igreja possui dois pulmões e ambos estão sob a cabeça do Papa. Por isso, nas exéquias do Santo Padres há ritos latinos e orientais.

Todos rezam por um instante em silêncio. Em seguida, retoma-se a liturgia em língua latina. Enquanto o Decano do Colégio Cardinalício asperge e incensa novamente o caixão do Santo Padre, a Schola entoa o responsório “Creio que meu Redentor está vivo (Credo quod Redemptor meus vivit)”. Em seguida, profere a oração:

“Pai clementíssimo, confiamos à tua Misericórdia o nosso Papa Francisco, que constituíste sucessor de Pedro e Pastor da Igreja, intrépido anunciador de Tua Palavra e fiel dispensador dos divinos mistérios. Recebei-o, nós vos pedimos, no santuário dos céus, a gozar da eterna glória com todos os teus eleitos. Nós vos agradecemos, Senhor, por todos os benefícios que em Tua bondade lhe concedestes pelo bem do Teu povo. À Igreja, privada de seu pastor, oferecei o conforto da fé e o dom da esperança. A ti, Pai, fonte da vida, no Espírito vivificante, por Cristo, vencedor da morte, toda honra e toda gloria pelos séculos dos séculos.” A assembleia aclama com “Amém”. Canta-se a antífona “Os anjos te conduzam ao Paraiso (In Paradisum deducant te angeli)”.

A liturgia se conclui com o féretro do Romano Pontífice sendo levado para a dentro da Basílica de São Pedro, durante o cântico evangélico do Magnificat. De lá, o cortejo segue para basílica Papal de Santa Maria Maior para ser sepultado.


Pe. João Paulo Góes Sillio 

Maestro das Celebrações litúrgicas do Arcebispo.

Setor arquidiocesano de liturgia

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