Missa Inaugural do ministério petrino do Bispo de Roma, Leão XIV:
O conclave que marcou a eleição do novo Romano Pontífice chegou ao seu fim quando o cardeal proto-diácono anunciou ao mundo, do balcão central das Bençãos na basílica vaticana, a esperada notícia: Habemus Papam! Confirmando a fumaça branca que já havia introduzido a multidão numa euforia contagiante naquela Praça de São Pedro. Após o anúncio de que o cardeal americano/peruano, prefeito do Dicastério para os Bispos, Robert Francis Prevost O.S.A (agostiniano) havia sido eleito para o sólio de Pedro, uma atmosfera de serenidade e continuidade tomou conta de mais de 2 bilhões de Católicos, ao saberem que Leão XIV era o novo sucessor do Apóstolo pescador de Betsaida.
Após a eleição do novo Papa, a Igreja
vivencia uma série de Ritos que são próprios do chamado Início do ministério petrino
do Bispo de Roma (Ordo Rituum Pro Ministerii Petrini Initio Romae Episcopi). A Santa
Missa presidida pelo Papa “pro ecclesia”, juntamente com os cardeais na Capela
Sistina, após a eleição já marca uma parte destes “ritos iniciais”, por assim
dizer. Mas as celebrações que seguirão também visibilizam a tomada de posse de
sua diocese e início de seu ministério como novo Pastor. A Missa Inaugural do ministério
petrino é a celebração importante que marca o início do pontificado do novo Papa.
Nela são entregues e impostas as insígnias próprias do Bispo de Roma, o Pálio e
o Anel do Pescador. Outras celebrações eucarísticas no decorrer dos próximos dias
também farão parte destes ritos: a tomada de posse da Arquipapal Basílica de São
João em Latrão e da Catedra papal; a tomada de posse das basílicas de São Paulo
fora dos muros e de Santa Maria Maior também terão seu lugar.
O presente artigo tratará da Missa
Inaugural do ministério petrino do Bispo de Roma, e a entrega do Pálio e do
Anel de Pescador. E, ao final, uma espécie de apêndice através do qual se
apresenta uma breve reflexão histórico-litúrgica das insígnias próprias do
Romano Pontífice.
Descrição da celebração:
Em seguida, incensa-o. Após, os três diáconos se aproximam, e um pega a bandeja com o Pálio, o segundo, o Anel, e o terceiro, o evangeliário e sobem para basílica. Os patriarcas Orientais, seguido pelo Papa também se posicionam no pavimento da basílica e se tem início a procissão de entrada.
A procissão percorrerá toda a extensão
da Basílica até o adro, na praça, onde se celebrará a Eucaristia. Enquanto
isso, a Schola Cantorum entoa a Laudes Regiae. Este canto é uma súplica
ao Cristo Senhor, que, a partir da intercessão dos santos nela invocados possam
sustentar a Igreja, o novo Bispo de Roma em sua missão, bem como os governantes. A Laudes
Regiae – literalmente louvor real – provém da Roma antiga. Era uma série de
invocações pagãs que visavam homenagear o imperador. A Igreja, desde o século
III, se apropriou destas invocações e as alterou substancialmente. No lugar das
aclamações pagãs entraram invocações ao Senhor, exaltando-o como vencedor, reinante
e com poder universal (Christus Vincit, Christus Regnat, Christus Imperat).
Se pede pela Igreja: “à Santa Igreja
de Deus, que para além dos reinos deste mundo reúne as almas: saúde perpétua (Ecclesiae
Sanctae Dei, Supra Regnorum fines nectenti anima: salus perpetua)”, e para
isso se invoca a Cristo como Redentor do Mundo, a Santa Maria, São João Batista,
São Miguel e São José, suplicando “ajudai-a (Tu illam adiuva)”.
A súplica pelo Papa é duplicada. A
primeira: “à Leão, Romano Pontífice, que reúna o povo na unidade da doutrina e
da caridade: ao pastor a Graça e obediência do rebanho (Leoni Romano Pontifici,
in unum populus doctrina congregante, caritate: Pastori gratia, grege obsequentia)”,
traz consigo a invocação dos doze apóstolos. A segunda: “à Leao, Bispo de Roma
e Sucessor de Pedro, que hoje inicia seu ministério: conceda a força, a concórdia
do Espírito, e a solicitude pela Igreja Universal (Leoni Romano Episcopo,
successori Petri suum ministerium hodie inauguranti: rubor, concordia Spíritus
et sollicitudo pro Universa Ecclesia)”, se suplica a ajuda de todos os pontífices
que já foram canonizados, pedindo “ajudai-o (Tu illum adiuva).
A procissão inicial chega ao altar, os
diáconos depõem os dois evangeliários (latino e grego) sobre o altar, e os
outros dois diáconos que portavam as insígnias fazem o mesmo; todos os
concelebrantes cardeais e os patriarcas das Igrejas Orientais o veneram segundo
o costume. O Santo Padre se aproxima do altar, beija e o incensa. Em seguida,
volta para o lugar da cadeira presidencial e inicia a Santa Missa com os ritos
iniciais. Tudo transcorre normalmente como de costume com a Liturgia da Palavra.
Na proclamação do evangelho, uma particularidade:
ele é proclamado em Latim, pelo diácono de rito latino, e, depois, em grego
pelo diácono de rito bizantino. Por qual motivo? Recordar que a Igreja é um
corpo que vive com dois pulmões, como explicou São João Paulo II: o pulmão
ocidental e o oriental. O Papa é a cabeça dos orientais e dos latinos, por isso
tem lugar ritos de ambas tradições durante algumas celebrações papais. A propósito,
isso se visibiliza inclusive na basílica de São Pedro, onde, sob a cátedra de São
Pedro aparecem dois padres da Igreja latina, Santo Ambrósio e Santo Agostinho, e
dois padres da Igreja oriental, São João Crisóstomo e Santo Atanásio.
Antigamente, existiam quatro grandes
centros litúrgicos: Roma, Constantinopla, Antioquia e Alexandria. A cada um
destes foi vinculado uma basílica papal. Santa Maria Maior recebeu Antioquia;
São Paulo, Alexandria; São Pedro, Constantinopla; São João de Latrão, Roma. Por
sua vinculação com Constantinopla, todas as celebrações papais na basílica de
São Pedro, sempre se faziam presentes diáconos orientais de rito bizantino, que
proclamavam o evangelho em grego, após a proclamação em latim.
Após a proclamação do evangelho, tem-se a entrega do Pálio. Um cardeal da ordem dos diáconos se aproxima e, juntamente com ele, o diácono que carrega a bandeja com o Pálio e os três espilloni. Então, profere a seguinte monição: “O Deus da paz, que fez ressurgir dos mortos o Grande Pastor das ovelhas, Nosso Senhor Jesus Cristo, te conceda Ele mesmo o Pálio tomado do altar da confissão do Apóstolo Pedro. A ele, o Bom Pastor ordenou apascentar as ovelhas, e hoje vós sucedeis a Pedro no episcopado desta Igreja que ele gerou para fé juntamente com o Apóstolo Paulo. O Espírito da Verdade, que do Pai procede, dê abundante inspiração e discernimento ao vosso ministério para confirmar os irmão na unidade da fé (Deus pacis, qui eduxit de mortuis pastorem magnum ovium Dominum Nostrum Iesum Christum, Ipse tibi Pallium donet, quod ab Apostoli Petri Confessione Sumpsimus. Illi Pastor Bonus suos agnos suasques oves pascere praecepit; tu hodie Petrus succedis in episcopatu huius ecclesiae quam ille, cum Apóstolo Paulo, fidei genuit. Spiritus Veritatis, qui ex Patri procedit, uberem inspirationem et eloquium tuo minsterio fratres in fidei unitate confirmandi largiatur). O cardeal diácono se aproxima e impõe o Pálio sobre os ombros do Santo Padre, cravando no tecido os espilloni: um na cruz superior central, outro na cruz que está sobre o ombro esquerdo, e por fim, na cruz superior central na parte de trás do tecido, simbolizando a ovelha que carrega sobre os ombros e o rebanho todo que é confiado ao Bispo de Roma. Enquanto isso, a Schola entoa uma prece: “Mostrai, ó Deus, vossa força; confirmai, ó Deus tudo quanto tens feito por nós (Manda Deus, virtuti tuae; confirma, confirma, hoc Deus, quod operatus es in nobis)”. Um cardeal presbítero recita a seguinte oração: “Ó Deus, que não decepcionais quem Vos invoca com coração reto e fiel, ouvi as súplicas de vossa Igreja: ao vosso servo, nosso Papa Leão, que colocastes no cume do ministério apostólico, por meio de nosso humilde serviço, concedei a vossa benção e o fortalecei com o Dom do vosso Espírito, para que o seu ministério corresponda à grandeza do carisma vós lhe conferistes. Por Cristo... (Deus, qui adesse non dedignaris ubi recto corde devotaque mente invocaris supplicationibus ecclesiae tuae quaesumus adesto: super famulum tuum Papam nostrum Leonem, quaem officio servitutis nostrae in culmine apostolico constituisti, dexterae tuae benedictionem effunde et ipse roboretur Donis Sprítus tui Sancti ut tantum ministerium ita digne ferat sicut tantae dignitatis charismate augetur. Per Christum...).
O evangeliário grego é trazido ao Santo Padre, que o beija em sinal de veneração, abençoando a assembleia. O coro do patriarcado ecumênico de Constantinopla entoa em grego uma saudação: “Eis polla êthe Despota” (Muitos anos de vida, Senhor). Ao Romano Pontífice algumas pessoas representando a assembleia, prestam obediência. A Schola canta a antífona “Tu es Petrus”. Em seguida, o Papa profere a sua homilia.
A celebração eucarística transcorre
normalmente com a profissão de fé, a oração universal (Preces dos Fieis) e a
Liturgia Eucarística. Após o Rito da Comunhão, tem-se a Oração Pós-Comunhão, e,
em seguida uma breve alocução concluída com a recitação da oração mariana do
Regina Caeli (própria para o tempo pascal). A santa Missa se encerra com a bênção
final do Santo Padre Leão XIV.
Pe. João Paulo Góes Sillio.
Maestro das Celebrações Litúrgicas do Arcebispo.
Setor Arquidiocesano de Liturgia.
APÊNDICE:
Insígnias litúrgicas do Bispo de Roma –
Pálio, Anel do pescador e Pastoral (férula papal):
Pálio
O Pálio, de cuja história e significado são pouco conhecidos é a insígnia mais antiga e característica do Bispo de Roma. O seu uso, no ocidente, se atesta desde o tempo do Papa Marcos (336 d.C), e era reservado unicamente ao Romano Pontífice ao qual se lhe era imposto, no ato de sua ordenação episcopal. Esta insígnia permaneceu ao longo de vários séculos como sinal distintivo do poder e do múnus do Bispo de Roma.
No princípio, o Pálio possuía um
significado essencialmente eclesiológico. Isso se verificava na forma que a
insígnia possuía (a qual encontra-se retratada nos vários mosaicos das
basílicas romanas, inclusive no mosaico de Santo Apolinário in Classe, em Ravena;
também na igreja de Santa Cecília se encontra um mosaico do Papa Pasqual I). As
duas faixas do Pálio tecidas em lã pura giram ao redor do colo, descendo de
ambos os lados (frente e atrás) do ombro esquerdo, significando a ovelha
trazida no ombro pelo Bom Pastor.
A partir do século XI, o Pálio muda de forma e assume um claro significado cristológico. A insígnia assume a forma de um Tau e, portanto, da cruz e as duas faixas de lã descem (na frente e atrás) do meio da faixa de lã que circula o colo do Papa e (e dos metropolitas, futuramente). As cruzes, no tecido, em número de quatro, frequentemente eram tingidas de vermelho. Sempre acompanhadas de três espilloni (cravos de metal).
Do
significado eclesiológico precedente (a ovelha e o pastor), o Pálio em forma de
cruz passa a significar especificamente o Cristo: as cruzes vermelhas indicam
as suas chagas, e os três espilloni, os três pregos da crucificação segundo a
tradição ocidental.
Por ocasião do Ano Santo de 2000, o Escritório das Celebrações Litúrgicas Pontifícias elaborou para o Santo Padre João Paulo II um modelo maior que o utilizado até então por ele, ainda em forma de Tau, mantendo a tipologia cristológica. No entanto, por ocasião do início do ministério petrino do Papa Bento XVI, o mesmo escritório elaborou um modelo que mais se aproximava da forma romana antiga (retratadas nos mosaicos mencionados acima), mantendo, ao mesmo tempo as quatro cruzes vermelhas e os três espilloni. Dando ao Pálio à sua forma original, procurou-se recuperar o significado eclesiológico e um forte sinal do múnus petrino, próprio do Romano Pontífice.
Anel
do Pescador:
O Anel tem uma história e um
significado no contexto antropológico e bíblico (Gn 41,42-40; Est 8,8; Lc
15,22). Segundo o testemunho do bispo Ottato de Milevi é muito provável que já
no final do século IV os bispos traziam consigo um anel episcopal entregue no
dia da Ordenação episcopal. Todavia, os primeiros testemunhos de um rito
litúrgico de entrega do Anel episcopal no Rito da Ordenação só aparecem no
século VII e proveniente da Espanha. Somente dois séculos mais tarde, no
período do império de Carlos II e do pontificado de Nicolau I, o uso é atestado
também no ritual franco.
Em seu uso primitivo, o Anel tinha
função de sigilo (selo) para selar e autenticar documentos. É provável que a
introdução desta insígnia tenha sido introduzida não tanto por razões
simbólicas, mas por necessidade do bispo a fim de autenticar os atos. Contudo,
durante o período do feudalismo episcopal, o anel perdeu o seu significado
original e assumiu o significado de poder temporal, principalmente após a crise
das investiduras, de onde a Igreja saiu vitoriosa. A este símbolo temporal
também se acrescentou o significado nupcial, já muito difundido no rito do
matrimônio. Emergirá a seguinte interpretação: o anel episcopal é imagem do
amor esponsal do bispo por sua diocese à semelhança do amor de Cristo por sua
Igreja. Com o anel, o ordinário é apresentado como esposo da igreja local e
chamado a ser fiel e puro na fé e na conduta de vida.
No caso do chamado Anel do Pescador,
no decorrer dos séculos, até o início do pontificado do Papa Bento XVI, a
insígnia havia sofrido várias transformações até assumir a forma de um timbre
sobre o qual está inscrito o nome do pontífice e cravada ao centro a imagem de
Pedro lançando as redes da barca. Como o nome sugere, no princípio se tratava
de um anel em que o pontífice gravava o seu selo, a fim de autentificar os
documentos e atos de governo. Alguns exemplares são de origem medievais, por
exemplo, o de Clemente IV. No século XIX o anel do pescador perdeu sua forma de
selo.
Depois do Concílio Vaticano II o anel episcopal do Bispo de Roma, abandonada a pedra preciosa nele incrustrada, assumiu uma forma mais simples e mais condizente com a nobre simplicidade desejada pelo Concílio. O anel do Papa, no entanto, permaneceu um anel comum que não se distinguia daqueles dos outros bispos. João Paulo II, por exemplo, sempre levava o anel recebido do Papa Paulo VI por ocasião de sua criação como cardeal, em 26 de junho de 1967.
Na ocasião do início do ministério
petrino do Papa Bento XVI pareceu oportuno que o anel episcopal do Romano
Pontífice, mantendo a forma e a simplicidade atual comum aos anéis dos outros
bispos, fosse dotado de características próprias aptas para indicar na pessoa
que o carrega, o sucessor do Apóstolo Pedro. Reassume a forma de anel com a
figura do apóstolo pescador da Galileia lançando as redes, tendo a inscrição do
nome do Pontífice.
A
Férula Papal – o Pastoral:
O termo “pastoral”, de per si, não indica uma insígnia própria do Bispo de Roma, mas um instrumento comum a todos os bispos. O “pastoral” do Pontífice, contudo, não possui a forma do “baculus pastoralis” do bispo, mas a forma da cruz. Na terminologia comum, também a cruz levada pelo Papa recebe o nome de “pastoral”. Como o anel, o báculo também possui um significado quer no contexto antropológico, quer no contexto bíblico (Ex 4,17.20; Sl 23,4) e no patrístico.
A origem do báculo no contexto litúrgico não é clara. É provável que derive da tradição oriental. Em Constantinopla, o báculo foi introduzido provavelmente pelo imperador que o entregava ao Patriarca. Sucessivamente se torna uma insígnia usada na Ordenação episcopal. No Ocidente, o uso do báculo nasceu no ambiente monástico. Ele fazia parte das vestimentas do monge: era seu companheiro de viagem e sinal da cruz de Cristo. Nos séculos VII e VIII a insígnia era utilizada pelos abades tanto na Gália, como nas ilhas Britânicas. Os primeiros testemunhos de um rito litúrgico de entrega ao bispo ordenado pertencem ao século VII e provém, como no caso do anel, da Igreja espanhola. Dois séculos mais tarde, também no tempo do imperador Carlos II e do Papa Nicolau I, o báculo se torna uma insígnia comum aos bispos da Gália. O seu uso litúrgico, porém, se impôs com muita lentidão. Só com o Pontifical de Guillaume Durand, bispo de Mende (1230 – 1296), o báculo se torna de uso geral e comum nas mais importantes celebrações litúrgicas presididas pelo bispo. No decurso dos séculos, esta insígnia sempre conservou o significado primitivo: sinal de autoridade, de governo e de guia.
Os romanos pontífices, enquanto recebiam bem o uso do anel da liturgia hispânica e galicana, não aceitaram a insígnia do báculo pastoral. Eles possuíam uma apropriada: a Férula. Uma haste montada sobre a outra, e, na extremidade uma cruz chamada também de Tau. O pastoral não podia entrar na liturgia papal, porque quando se difundiu o seu uso, o Papa já possuía uma insígnia análoga. Além disso, o báculo havia se tornado o sinal de um poder e de uma autoridade de outro a este submetida, indicada pela curvatura na sua extremidade e, por isso, não poderia ser aceita pelo Papa.
O significado da Férula é o mesmo do báculo: autoridade, jurisdição e de governo. Ela, todavia, a diferença do báculo, não vem entregue na liturgia de ordenação episcopal. Mas somente quando da tomada de posse do “Patriarchium Lateranense”, e, salvo raras exceções, o seu uso permaneceu fora do âmbito litúrgico. A começar pelo Papa Paulo VI, o uso da Férula foi inserida no uso litúrgico. Desde então, os papas usam nas celebrações litúrgicas um “pastoral” em forma de Cruz que recorda, através da forma artística do instrumento, a antiga Férula.

















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