UM CONCLAVE PARA A IGREJA UNIVERSAL – De dentro para fora. Anotações acerca do Ordo Rituum Conclavis:
A páscoa pessoal de um Papa traz consigo um período de reflexão, oração, “colheita” (no sentido de se recolher os frutos de seu pontificado). Durante nove dias a Igreja se coloca em oração em memória do Bispo de Roma e pelo seu eterno descanso. Após este período, os padres Cardeais, tendo também realizado as chamadas Congregações Gerais (reuniões preparatórias) estabelecem a data para o início de um evento importante, a saber, a eleição do novo sucessor de Pedro. O conclave para eleger o novo Papa.
O conclave não é um evento meramente
político ou ensaiado, pro forma, como podem pensar muitos de nosso tempo. Trata-se
acima de tudo de um acontecimento eclesial, de onde se visibiliza a universalidade
da Igreja através da multifacetada composição do colégio cardinalício – Colégio
dos Cardeais – que é expressão do Colégio Episcopal. Em cada cardeal-bispo, a comunidade
dos fiéis, isto é, a Igreja, deve se ver ali representada.
Em segundo lugar, enquanto se
celebra a eleição do novo sucessor de Pedro, a Igreja está particularmente
unida com os sagrados pastores, e sobretudo com os cardeais eleitores, e implora
à Deus o novo Sumo Pontífice, como dom de Sua bondade e providência. É
necessário, nesse sentido, que toda a Igreja como as primeiras comunidades
cristãs, atestadas no livro dos Atos dos Apóstolos (cf. 1,14), em união
espiritual com Maria, Mãe de Jesus, persevere concorde na oração para obter do
Senhor um digno pastor (Ordo Rituum Conclavis, n.2).
Assim como o protagonista da vida das comunidades e de cada discípulo de
Jesus foi o Espírito, também O é na vida a na condução da Igreja hoje, e O será na
escolha do novo Papa. O Espírito Santo agirá na condição de educador. Para isto, os cardeais, bem como toda a comunidade
dos fieis precisam estar atentos ao que Ele diz à Igreja hoje. Nesse sentido, devemos acompanha-los com nossa oração incessante, por isso, INTRA OMNES
(todos estão convidados a estar todos dentro deste rito).
A eleição do Bispo de Roma:
O conclave, a rigor, começa com a missa “Pro eligendo Romano Pontifice –
pela eleição do Romano Pontífice”. Co-presidida pelos cardeais, no período da
manhã, na basílica vaticana, com a participação dos bispos, presbíteros, diáconos,
Povo de Deus, institutos de vida consagrada e sociedades de vida apostólicas, a
santa missa prepara a entrada dos eleitores, no período da tarde, na Capela
Sistina, no Palácio Apostólico. Todo o povo fiel e batizado se reúne para
invocar o auxilio de Deus mediante seu Santo Espírito a fim de se escolher o novo
Bispo de Roma.
A tarde, os cardeais com o Camerlengo, juntamente com o maestro das celebrações litúrgicas do Sumo Pontífice, com dois “cerimoniere”, dois religiosos da capela pontifícia, dois eclesiásticos responsáveis pelas pregações antes das votações, três assistentes do Camerlengo, cantores da Capela Sistina e um diácono com evangeliário se reúnem na Capela Paulina. Ali, após uma monição do decano do Colégio, ou na ausência dele o cardeal da ordem dos bispos; em seguida, organizam-se em procissão até a Capela Sistina ao canto da Ladainha. Ao chegarem na capela, todos assumem seus respectivos lugares. Em seguida, entoa-se o hino “Veni Creator”, suplicando a assistência do Espirito Santo. Note-se a atmosfera orante do rito.
Os cardeais eleitores, após o hino ao Espírito Santo, organizam-se em fila para irem até o livro dos evangelhos para, tocando com uma das mãos sobre este, realizem o seu juramento de fidelidade diante da grave tarefa de se eleger o Sumo Pontífice. Este ato também sela com sigilo tudo o que se possa acontecer do início das séries de votações (duas pela manhã e duas à tarde), até o resultado final e definitivo. Nada pode ser revelado do que se passa ali após o fechamento das portas à chave. Ao fim do ato de juramento, o maestro das celebrações litúrgicas pontifícias se aproxima do altar e, voltado para os cardeais pronuncia o “EXTRA OMNES (Todos Fora)”, convidando aos cantores, auxiliares, apoio técnico, que até aquele momento estavam autorizados a permanecer no recinto a saírem. Só permanecem, ainda por tempo breve, o mesmo maestro e seus auxiliares, com os dois pregadores. Um destes pregadores tem a responsabilidade de dirigir aos padres cardeais uma breve alocução expondo-lhes o dever que terão de eleger o novo Sucessor de Pedro. Terminada esta primeira pregação, então se retiram estes cinco pela porta da frente, e o cardeal bispo mais velho sela de modo definitivo a capela. E inicia-se a primeira sessão dos escrutínios.
O rito é uma cadência de orações e súplicas também ao interno da Capela Sisitina, antes e depois de cada votação. Antes de iniciar a votação, quem preside o escrutínio o inicia com uma invocação e a oração do Senhor. Então começam a votar. As cédulas contem escrito a frase “Elejo para Sumo Pontífice (Eligo in Summum Pontificem...N)”, e ao final dela se deve escrever de próprio punho o nome de seu candidato. Feito isso, se dirige até o altar, e pronuncia: “Invoco como testemunha Cristo Senhor, o qual me há-de julgar, que o meu voto é dado àquele que, segundo Deus, julgo, deve ser eleito (Testor Christum Dominum, qui me iudicaturus est, me eum eligere, quem secundum Deum iudico eligi debere)” com a cédula na mão direita levantada; ao recitar a frase, deposita o voto sobre um prato de metal que é colocado na urna de prata. Terminada a sessão, e não tendo ainda eleito com a maioria de dois terços (89 votos dos 133) o novo Papa, então se conclui com uma prece e a oração do Senhor, aquela votação. O decano, ou quem lhe faz as vezes (devido algum impedimento, ou por ter ultrapassado os oitenta anos), se dirige até a porta central da capela, destranca-a e convoca o maestro e seus auxiliares para entrarem novamente. Se dirigem a mesa escrutinadora, recolhem os votos já abertos e contabilizados e os transpassam com uma linha vermelha; os mesmos são colocados numa bandeja e levados ao incinerador, cuja chaminé se comunica com o externo da capela, sobre o telhado. Adiciona-se um componente químico sobre as cédulas e as depositam no incinerador. Os votos queimados produzem uma fumaça negra, a qual indica que os cardeais ainda não chegaram a um consenso. O que foi descrito acima se repete até que se finalize as quatro sessões diárias prevista ou até que se tenha eleito o novo Bispo de Roma, conforme dispõe a Universi Dominici Gregis. Se após as quatro sessões, não tiverem chegado no consenso suspende-se a votação naquele dia, retomando-a no dia seguinte, após a celebração da Hora Média e da Santa Missa na capela da Casa Santa Marta ou na Sistina, a juízo do maestro das celebrações litúrgicas do Sumo Pontífice ou do decano ou do cardeal-bispo mais antigo.
No caso de o neo-eleito ser privado do caráter episcopal, o que pode
acontecer se os padres cardeais optarem por elegerem alguém dentre eles que seja apenas presbítero, ou mesmo de fora do colégio
cardinalício e episcopal, a Constituição Universi Dominici Gregis, juntamente
com o Ordo Rituum Conclavis preveem e estabelecem que este seja
imediatamente ordenado bispo. Então celebra-se a eucaristia com a liturgia de
ordenação. Quem a preside como bispo consagrante principal é o Decano, ou o
cardeal-bispo mais velho do colégio. Entretanto, mesmo sendo ainda privado do
caráter episcopal, o eleito já, pela força de sua eleição canônica, o novo eleito
de Roma, chefe do colégio dos cardeais, cabeça do colégio apostólico e goza de
plenos poderes como Sumo Pontífice da Igreja.
Após a liturgia da Palavra, se o eleito for já bispo e naturalmente cardeal,
os cardeais realizam seu primeiro ato de obséquio e obediência ao novo Papa, se
dirigindo a ele um por um. Terminado este ato de reverência, o novo Bispo de
Roma entoa ação de graças pelo hino do Te Deum. Se o eleito não for bispo,
celebra-se a ordenação episcopal, e, ao termino dela, se realiza o ato de obséquio
e obediência ao novo Romano Pontífice.
A antiga tradição de se comunicar a eleição do novo pontífice já se iniciou
pela visão da fumaça branca, pela audição dos sinos, e, agora, chega-se ao ápice
com a proclamação verbal feita pelo cardeal protodiácono do Colégio Cardinalício.
Este se dirige ao balcão central da Basílica de São Pedro e anuncia: “irmãos
e irmãs, vos anuncio com grande alegria: Temos Papa. O eminentíssimo
reverendíssimo Senhor. Senhor N (pronuncia o nome de batismo do eleito).
Cardeal da Santa Igreja de Roma. N (sobrenome). Que se impôs o nome de N (nome pelo
qual será conhecido) (“Fratelli e sorelle. Annuntio vobis gaudium magnum: Habemus Papam. Eminentissimum ac Reverendissimum
Dominum. Dominum N., Sanctae Romanae Ecclesiae Cardinalem N., Qui sibi nomem
imposuit N.,”).
O novo Papa é conduzido ao podium da basílica vaticana, tendo a sua
frente a cruz processional portada pelo “cerimoniere”, e ao seu lado o maestro
das celebrações litúrgicas, junto com o cardeal decano e o cardeal-bispo mais idoso.
Nas janelas ao lado, os demais padres cardeais se posicionam para que o novo
Bispo de Roma fale a seu povo e conceda a Bênção Urbi et orbi (para a cidade de
Roma e para o mundo), após um breve discurso ao seu povo.
Nos dias que se seguirão, o novo Papa celebrará a eucaristia em ação de graças por sua eleição na Capela Sistina com o Colégio Cardinalício, tomará posse dos aposentos que foram selados por ocasião da morte do Pontífice anterior. Será marcada também a Missa pela Inauguração do Ministério Petrino do novo Papa, e, por fim, a tomada de posse da cátedra em São João de Latrão. Encerrando-se, assim, os ritos inaugurais do Múnus Petrino do novo Bispo de Roma.
Pe. João Paulo Sillio
Maestro das celebrações litúrgicas do arcebispo
Setor Arquidiocesano de Liturgia.



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